ARTIGO

Sem anistia

Fingir que nada aconteceu, passar uma borracha, "esquecer" — como querem pré-candidatos, no vale-tudo pela Presidência — é permitir que ocorram novas ofensivas

Nos ataques golpistas de 8 de janeiro, extremistas depredaram prédios dos Três Poderes -  (crédito: Ed Alves/CB/ D.A Press)
Nos ataques golpistas de 8 de janeiro, extremistas depredaram prédios dos Três Poderes - (crédito: Ed Alves/CB/ D.A Press)

É lastimável que pré-candidatos à Presidência da República apresentem como cartão de visitas a promessa de anistia ampla, geral e irrestrita a golpistas condenados. Postulantes ao comando do país não têm pudor de enfatizar que o principal contemplado com o perdão será o chefe da organização criminosa que atentou contra a democracia. Chefe este, diga-se, que desfruta de prisão domiciliar humanitária — benefício possível apenas no Estado de Direito que ele tentou derrubar.

O argumento acintoso desses pré-candidatos é que a pacificação do país passa pela anistia. Livrar da cadeia os que planejaram assassinato de autoridades? Os que depredaram os prédios dos Três Poderes? Os que bradaram por intervenção militar e queriam mergulhar o Brasil novamente num período de trevas?

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Lembremos: ainda temos uma imensa dívida com nossa história. Nunca houve responsabilização pelas barbáries cometidas na ditadura militar. Quem perseguiu, reprimiu, torturou, estuprou e assassinou acabou perdoado. Mas até hoje há vítimas desaparecidas. Até hoje, há famílias sem respostas. E lá se vão 62 anos — completados na última terça-feira — desde o início daqueles tempos de terror.

O regime que envergonha este país foi tão brutal que não poupou nem crianças. A vítima mais jovem da ditadura, Carlos Alexandre, tinha 1 ano e oito meses, em 1974, quando foi torturado por agentes da repressão. Ele nunca se recuperou do trauma. Em 2013, tirou a própria vida.

A impunidade da corja que afligiu o Brasil durante mais de duas décadas instigou a investida que vimos recentemente. Os golpistas de agora só não alcançaram êxito porque as instituições funcionaram. E funcionaram tão bem que vimos, pela primeira vez, um ex-presidente ser condenado e ir para a cadeia por tentar derrubar a democracia, vimos punição de militares de alta patente, vimos o bando de radicais antipatriotas do 8 de Janeiro ser trancafiado. Um trabalho inestimável do Supremo Tribunal Federal. A Corte mostrou como golpistas devem ser tratados.

Fingir que nada aconteceu, passar uma borracha, "esquecer" — como querem pré-candidatos, no vale-tudo pela Presidência — é permitir que ocorram novas ofensivas. É permitir que o autoritarismo coloque novamente suas garras para fora, para tolher liberdades, calar vozes, assassinar. Os golpistas têm de cumprir suas sentenças, como criminosos que são. Sem redução de pena, sem anistia.

 

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postado em 02/04/2026 06:00
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