
Donald Trump não tirou o domingo para descanso. Iniciou o dia prometendo um bloqueio do Estreito de Ormuz, sem regras claras sobre como se daria a medida. Antes de intervir no trânsito de um dos principais fluxos marítimos da economia mundial, arrumou tempo para atacar a maior organização religiosa do mundo, que tem 25% dos estadunidenses entre os seus adeptos: a Igreja Católica. Entrou na segunda-feira e na sétima semana da guerra contra o Irã ainda mais verborrágico, deixando claro que senta na cadeira da Casa Branca alguém disposto a governar a partir da instabilidade global.
A ofensiva contra os católicos usou um roteiro conhecido: uso de inteligência artificial (IA) e de acusações não comprovadas, com recuo calculado. Ainda no domingo, Trump disse a repórteres que não era um "grande fã" do papa Leão XIV e o acusou de "brincar com um país que quer uma arma nuclear". Na madrugada de segunda-feira, foi à sua rede social para detalhar a desaprovação: "Não quero um papa que ache que tudo bem o Irã ter uma arma nuclear. Não quero um papa que ache terrível que os Estados Unidos tenham atacado a Venezuela, um país que estava enviando enormes quantidades de drogas para os Estados Unidos", escreveu em um trecho do controverso post.
Logo depois, publicou uma imagem feita por IA em que ele aparece como Jesus abençoando um doente. Diante da reação mundial aos ataques ao pontífice e à Igreja Católica — vindas até de sua base de apoio nos Estados Unidos —, apagou a imagem, negou que ela o retratasse como Cristo (seria um médico da Cruz Vermelha, que tem, inclusive, sua atuação comprometida pela gestão do republicano), mas não pediu desculpas a Leão XIV.
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O papa, por sua vez, respondeu não ter medo do governo Trump nem de proclamar "em voz alta a mensagem do Evangelho". "Não somos políticos, não lidamos com assuntos externos sob a mesma perspectiva que ele pode compreender, mas acredito na mensagem do Evangelho como promotor da paz." Também afirmou não "querer entrar em debate" com o presidente estadunidense, reação alinhada à reconhecida postura de discrição e cuidado com as declarações públicas — o oposto do compatriota.
Trump tem apreço pela intranquilidade. Transitou do ataque ao pontífice à guerra com o Irã sem baixar o tom. Ao bloquear o Estreito de Ormuz ontem, ameaçou adotar o "mesmo sistema de morte" empregado contra suspeitos de drogas no Caribe contra embarcações iranianas que tentassem entrar no canal marítimo. Os iranianos, que acusam os EUA de pirataria, avisaram que nenhum porto do Golfo estará "a salvo" de represálias.
De efeito imediato, há novo disparo no preço do petróleo — aumento de quase 6% — e mobilização de potências até então mais distantes da crise no Oriente Médio. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Guo Jiakun, declarou ontem que Pequim espera que as partes envolvidas "criem condições para um rápido retorno à paz e à tranquilidade na região do Golfo". Estima-se que o Irã represente cerca de 10% das importações de petróleo da China.
À medida que a tensão escala e novos atores entram no conflito — ainda que no campo das declarações e narrativas —, a desordem em curso ganha proporções globais, evidenciando a impotência do sistema multilateral em dar respostas eficazes ao conflito. Trata-se de campo fértil para o caos. E, como tem sido lembrado neste espaço, a História mostra que a falência da cooperação entre os países não tem um desfecho civilizatório.
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