
Marcello Averbug, Consultor econômico,ex-professor da UFF, economistaaposentado do BNDES eex-economista do BID
Além dos conflitos políticos, religiosos e bélicos que atormentam a humanidade, existe outro gênero de atrito ainda latente e não percebido pela opinião pública. Nem mesmo os núcleos acadêmicos, esferas políticas e outros segmentos da sociedade mundial se deram conta do seguinte: futuras tensões poderão ocorrer pelo fato de que as duas principais correntes ideológicas há longo tempo predominantes — capitalismo e socialismo/comunismo — não vêm proporcionando suficientes benefícios aos habitantes do planeta.
No lado socialista/comunista, minoritário no cenário global, o fracasso é inquestionável, e os poucos países ainda submersos nesse sistema, como Cuba e Coreia do Norte, padecem de baixo nível de vida, autoritarismo e mediocridade cultural. China e Vietnã, teoricamente classificados como comunistas, só lograram excepcional crescimento econômico quando incorporaram elevado grau de teor capitalista em seus sistemas produtivos. Quando a União Soviética desmoronou, seu antes aparente vigor econômico foi desmascarado, sobrando como realidade apenas o modesto nível de vida da população.
Constata-se, então, que, a partir do final dos anos de 1980, a maior parte do mundo consagrou o capitalismo como melhor alternativa disponível de organização da sociedade, inibindo a amplitude de qualquer visão crítica. Mas, será que o saldo do desempenho dos países capitalistas justifica um tranquilo sentimento de satisfação?
Winston Churchill declarou ironicamente que a democracia é o pior sistema político que existe, com exceção de todos os demais! A mesma frase pode ser aplicada ao capitalismo, pois, embora ainda não tenha sido descoberto sistema melhor, inúmeras razões justificam submetê-lo a aperfeiçoamentos.
Contemplando a forma como o capitalismo vem sendo praticado, tanto nos países desenvolvidos quanto nos menos privilegiados, chega-se à conclusão de que existem motivos de preocupação quanto às perspectivas de longo prazo. Surge, então, a dúvida: será que esses países estão caminhando em direção a um estágio qualitativo substancialmente superior ao atual?
Sob o ângulo do progresso tecnológico, a evolução em curso é admirável e gera otimismo quanto ao que poderá ser alcançado em vasto conjunto de setores. Porém, sob o ângulo socioeconômico, a realidade não é animadora. Inúmeros exemplos podem ser usados para ilustrar essa conclusão, mas aqui serão citados apenas dois.
O primeiro é o fato de que o estilo de capitalismo em vigor nas nações não desenvolvidas falhou em proporcionar taxas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) suficientes para libertá-las de tal condição. Desde o final da Segunda Guerra, nenhuma dessas nações, com exceção da Coreia do Sul, logrou ingressar no clube dos desenvolvidos, e algumas até se distanciaram ainda mais da porta de entrada do almejado clube. O caso da China é peculiar, conforme mencionado anteriormente.
Como segundo exemplo, que abrange a maior parte do mundo, cabe apontar a permanente tendência ao aumento dos contrastes sociais. É o que aponta o Relatório Mundial sobre a Desigualdade 2026, elaborado pelo World Inequality Lab sob a liderança do economista francês Thomas Piketty. O relatório abrange todo o planeta, mas o peso estatístico dos países capitalistas é preponderante.
A atual concentração de patrimônio atingiu o maior nível em três décadas. Os 10% mais ricos da população detêm 75% de toda a riqueza global, enquanto a metade mais pobre fica com apenas 2%. A desigualdade também é revelada quando se observa o nível de renda anual das classes sociais: os 10% mais ricos do mundo detêm 53% da renda global, enquanto os 50% mais pobres recebem apenas 8%.
Mediante os dois exemplos citados, é possível avaliar o quanto seria relevante a adoção de políticas públicas que incrementassem a capacidade do capitalismo em promover desenvolvimento em todas as nações e, também, amenizar a concentração de renda vigente na comunidade internacional.
