
José Sarney — ex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras
Hoje, 24 de abril, é o dia em que meus olhos se abriram para o mundo, às sete e meia da manhã, na cidade de Pinheiro, localizada na Pré-Amazônia, área da Baixada Maranhense, zona de campos verdes, alagados, com muitos lagos e capins variados, como arroz-bravo, andrequicé, capim-de-marreca, algodão-do-campo e flores amarelas que enfeitavam o tapete verde das plantas.
Nessa cidade, as casas baixas, a rua deserta e a visão do campo verde davam ternura a uma planície sem-fim que se perdia no horizonte. A cidade era uma pequena vila de duas ruas, uma maior, o eixo central, como em outros lugares sempre chamada de Rua Grande, e a outra que dela derivava e ia em curva até a Igreja de Santo Inácio, onde se iniciara a povoação. Em 1920, foi elevada a município, desmembrada da Comarca de São Bento.
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Em março de 1930, uma comitiva chegou a Pinheiro no fim da tarde e desembarcou no porto do Albino Paiva — assim chamado porque ali ele tinha sua casa de comércio —, onde aportavam as canoas que, no inverno, eram o único transporte disponível. Naquela tarde, meus pais se dirigiram para a casa onde iriam morar.
Deus, o ser bondoso que eu sabia ter me dado a vida, me assegurou a eternidade no paraíso que Ele me dera para viver na Terra: uma pequenina casa, com um quarto na frente, com piso de tijolo local, um outro quarto, uma salinha de comida e cozinha, juntas, de chão de barro batido.
A casa da infância é, sobretudo, onde moram as saudades nunca mortas, no interior do Maranhão, há quase 100 anos — isso parece ontem. Na memória me vêm o pote com água de caneca, a cozinha com os caldeirões de ferro, em trempes de pedra, com carvão de árvores secas, as fruteiras, manga, figos laranja-da-terra, tangerinas e a horta de quintal com tomates, vinagreira, maxixes, alface e abóbora. Os urucus vermelhos e o cavalo Graúna, preto, brilhante, relinchando com a chegada das cargas de palmito de babaçu, num quadro materializado no tempo.
Ficava na rua principal, àquele tempo José Anastácio, que fora um grande prefeito da cidade. Em frente morava José Alvim, farmacêutico, solteirão que depois veio a se casar com Inês de Castro — que se tornaram meus amigos, eles e seus filhos.
Naquela madrugada de abril anterior ao meu nascimento, chovera muito, e ainda chovia quando meu pai teve de ir buscar na Farmácia do Zé Alvim, a única da vila, uma injeção para restabelecer as contrações do parto. Aliás, o ditado popular era: "abril, chuvas mil; maio, trovão e raio".
Busco antigas recordações e lembro das chuvas da minha infância e, na minha memória, as águas não param de cair. Ao me recordar desse tempo, hoje ainda chove, uma chuva azul-escuro que turva o dia.
Na cidadezinha pequena, pobre, isolada, mas bela na pureza de seus humildes arruados, Pinheiro, ficava minha casa, meu chão, onde meus olhos se abriram para a vida. Em duas ruas a cidade se esgotava. Mas nada mais belo do que a minha cidade, seus campos, suas águas, sua gente.
Eu tenho escrito muitas vezes que o tempo é uma criação do homem, feito de datas escolhidas por nós. Mas o tempo não destrói as memórias velhas, onde ficam as saudades nunca mortas.
Ao longo da vida, com mais de 50 anos de crônicas de imprensa, publicadas semanalmente em jornais e sites, que eu me recorde, com boa memória, jamais meu aniversário coincidiu com a data e o dia da publicação do meu artigo: sexta-feira, 24. Por isso, compartilho tanta saudade.
Desculpe-me o leitor, mas obrigado pelos parabéns que eu sei que está me enviando.
Eu sou só gratidão no dia de hoje. Todas as manhãs e noites agradeço a Deus pela vida que me deu, através do meu pai e da minha mãe, e pela minha família: filhos, genro, noras, netos, bisnetos, parentes e amigos. Deus guiou os meus passos.
Viva a vida. Viva o amor. E as saudades que nunca morrem.
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