Visão do Correio

Mundo precisa de mais esforços para acabar com a guerra

A geopolítica do petróleo afeta a vida dos cidadãos e a dinâmica das nações. Prolongar essa guerra significa espalhar cada vez mais instabilidade pelo mundo

Depois de semanas de combates e do fracasso das negociações mediadas pelo Paquistão, a guerra no Oriente Médio pode entrar em nova fase crítica. No último domingo, Donald Trump publicou, em sua rede social, que a Marinha dos Estados Unidos bloqueará totalmente o Estreito de Ormuz e interceptará qualquer navio que pague "pedágios" ao Irã. Após o anúncio, na última terça-feira, de um cessar-fogo que já demonstrou ser frágil, a falta de acordo em Islamabad e a mais recente ameaça de Trump elevam a tensão pelo mundo. Se confirmada a medida sobre a artéria por onde fluem cerca de 20% do petróleo global, a diplomacia novamente perde espaço e os reflexos tendem a ficar ainda mais complexos. 

Também ontem, a Casa Branca divulgou que o principal ponto de discórdia na mesa de discussões em território paquistanês foi a questão nuclear. O vice-presidente JD Vance, que liderou a delegação dos EUA, afirmou que o impasse ocorreu como resultado de Teerã se recusar a aceitar os termos de Washington para abandonar o desenvolvimento de armamento atômico. Do lado oposto, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, disse que seu país atuou com "boa-fé e a vontade necessária", mas não confia na outra parte devido a experiências anteriores. Ele garantiu também que o Irã reagirá a qualquer investida do inimigo.

Essa ruptura, com um possível cerco naval norte-americano, eleva a preocupação internacional. Na Ásia, potências como China e Índia veem seu suprimento energético vital ser transformado em moeda de troca de guerra. Na Europa, os fantasmas da inflação alta e do crescimento zero tornam-se uma realidade palpável à medida que os custos de transporte e energia corroem o poder de compra das pessoas. 

Nesse jogo de xadrez, Donald Trump parece continuar apostando que a força levará a um acordo nuclear definitivo. Mas a resistência de Teerã também segue mostrando seu poder. Fato é que uma escalada do confronto em Ormuz pode reduzir a distância para a recessão global. A estabilidade do estreito é uma necessidade, e manobras militares em suas águas podem provocar o estrangulamento da economia global.

Em termos de combate, é de conhecimento que o Irã tem minas navais, drones e lanchas rápidas projetadas especificamente para atacar embarcações — arsenal com potencial de subir os custos para os norte-americanos. Além disso, a intensificação do bloqueio naval, com a entrada dos EUA no cenário, agrava a situação da população iraniana, que sofre com milhares de mortes e todas as demais consequências dos ataques. Sem contar o perigo iminente de o conflito se expandir para outros países da região.

A geopolítica do petróleo afeta a vida dos cidadãos e a dinâmica das nações. Prolongar essa guerra significa espalhar cada vez mais instabilidade pelo mundo. O fracasso no Paquistão e o anúncio de Trump aumentam os desafios para os negociadores, porém não podem enfraquecer a busca por um acordo de paz definitivo. 

As vidas perdidas e o preço pago na bomba de gasolina, e no mercado em geral, precisam falar mais alto. Andar por muito tempo sobre a corda bamba econômica desse conflito pode ser fatal em diversos sentidos. Acabar com a guerra é uma questão de autopreservação global. Quanto mais tempo e mais severo for o confronto, mais perto o mundo chega de um colapso logístico e financeiro, do qual levará anos para se recuperar.

 

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