Valdir Oliveira — ex-secretário de Desenvolvimento Econômico do Distrito Federal
Recentemente, o novo secretário de Economia do Distrito Federal afirmou que Brasília se tornou uma "máquina desgovernada". A frase é forte, mas os números mostram que ela não é exagerada. O problema não é retórico. É fiscal.
O Distrito Federal entra em 2026 com um conjunto de pressões que, somadas, apontam para um rombo relevante nas contas públicas. E o mais importante: essa estimativa não foi construída com premissas agressivas ou aleatórias. Pelo contrário. Trata-se de uma análise conservadora e baseada em avaliações técnicas, sustentadas no comportamento histórico e recente das principais variáveis fiscais.
As contas do DF carregam um resultado negativo herdado de 2025, um volume elevado de Despesas de Exercícios Anteriores (DEA), crescimento consistente dos Restos a Pagar não Processados (RPNP) e uma expansão estrutural das despesas. Essas quatro variáveis mostram que a irresponsabilidade fiscal sugerida pelo novo secretário é um fato, subestimado, inegável, construído ao longo dos últimos anos.
O DEA projetado para 2026 está na casa de R$ 1,6 bilhão. Isso significa despesas realizadas e não pagas no tempo correto. Não é previsão. É consequência de execução passada. E o mais grave: não é um fato isolado. Historicamente, cerca de 80% do DEA se concentra até abril. Em 2026, os pagamentos já superaram R$ 1,4 bilhão, o que sustenta, de forma conservadora, a projeção de R$ 1,6 bilhão ao final do exercício.
A expansão das despesas também pressiona o caixa. Considerando apenas a parcela efetiva — cerca de 75% do crescimento —, o impacto financeiro ultrapassa R$ 3,6 bilhões. E esse número não surgiu de forma mágica. Nos últimos anos, a despesa total do DF vem crescendo de forma contínua, com taxas médias próximas a 6% ao ano, acumulando um aumento relevante no período recente. Na prática, isso significa que o gasto público passou a crescer em ritmo superior à capacidade de financiamento, ampliando o descompasso com a receita e pressionando cada vez mais o resultado fiscal. Trata-se de um crescimento persistente que, somado ao acúmulo de passivos, ajuda a explicar o tamanho do desequilíbrio atual.
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Os restos a pagar seguem a mesma lógica. Parte relevante das despesas empenhadas e não executadas tende a ser carregada para frente, aumentando a pressão sobre os exercícios seguintes. E isso também não é pontual. Dados dos Relatórios Resumidos de Execução Orçamentária (RREO) do 6º bimestre e dos Relatórios de Gestão Fiscal (RGF) do 3º quadrimestre mostram que os Restos a Pagar não Processados do Distrito Federal vêm se mantendo em patamar elevado nos últimos anos, sempre na casa de bilhões de reais. Em 2022, já se encontravam próximos de R$ 1 bilhão. Em 2023, avançaram para a casa de R$ 1,2 bilhão. Em 2024, superaram R$ 1,4 bilhão e, em 2025, R$ 1,7 bilhão. Para 2026, permanecem nesse patamar elevado, consolidando uma trajetória de crescimento.
Somando esses fatores, a insuficiência estrutural estimada para 2026 se aproxima de R$ 7,7 bilhões. Em cenários moderados de frustração de receita, esse número pode ultrapassar R$ 9 bilhões.
Esse é o tamanho do problema. E ele não surgiu agora.
O crescimento do DEA e do RPNP ao longo dos últimos anos mostra um padrão: gasta-se sem pagar e compromete-se sem executar. Mas há um ponto ainda mais evidente: a despesa cresce em ritmo superior à receita. Esse descompasso é a prova concreta de que o diagnóstico está correto. No primeiro bimestre de 2026, as despesas empenhadas e não pagas passam de R$ 3 bilhões. Quando o gasto cresce mais rápido que a arrecadação, o desequilíbrio deixa de ser risco e passa a ser certeza. É isso que caracteriza uma máquina desgovernada. Não porque parou, mas porque perdeu a capacidade de se sustentar ou a responsabilidade de uma gestão, que é o mínimo que se espera dos governantes, principalmente após o advento da Lei de Responsabilidade Fiscal.
A irresponsabilidade na gestão das contas de um governo faz com que ele passe a operar no limite. Paga o que vence primeiro. Empurra o restante. Trabalha com orçamento fantasioso, com subdimensionamento da despesa, obrigando a ter administrações pontuais de reservas orçamentárias insuficientes para o gasto e superdimensionamento de receita, o que leva a uma frustração de receita, mesmo tendo crescimento relativo ao exercício anterior, aparentando uma normalidade fiscal.
Mas essa normalidade é frágil. Qualquer frustração de receita amplia o desequilíbrio. Qualquer aumento de despesa agrava o problema. E esse cenário já começou a aparecer.
Diante desse quadro, a resposta esperada é clara: conter despesas, reorganizar prioridades e recuperar o controle fiscal. Mas o sinal inicial foi outro. Mesmo com esse cenário de pressão bilionária, a decisão foi ampliar a estrutura do governo, com a criação de duas administrações regionais e uma secretaria de Estado, além da possibilidade de aumento de salário.
A política pode até tentar suavizar a realidade. Mas a matemática não negocia. E, no fim, ela sempre vence. Se nada mudar, Brasília não enfrentará apenas um desequilíbrio fiscal. Enfrentará as consequências de ter escolhido ignorá-lo.
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