ARTIGO

Brasília: uma crônica de duas cidades

Enquanto a mídia nacional trata Brasília como o tabuleiro onde se joga o futuro da democracia, o candango comum se preocupa com o metrô superlotado, com a calçada que sumiu sob o mato, com o posto de saúde que fechou mais cedo

Jaqueline Gomes de Jesuspsicóloga, professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino de História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

Brasília é, ao mesmo tempo, a cidade mais conhecida e a mais desconhecida do Brasil. Quem vive fora a enxerga pelo binóculo as decisões que ocorrem no entorno da Praça dos Três Poderes. Já quem mora na área urbana do Distrito Federal sabe que a vida acontece principalmente nas entrequadras e nas regiões administrativas, nas filas dos poucos ônibus e na travessia do Eixão. Nós, os brasilienses, somos um sujeito coletivo que está aprendendo a habitar uma cidade polinucleada que também é capital.

Nos últimos anos, esse estranhamento se tornou ainda mais evidente. Enquanto a mídia nacional trata Brasília como o tabuleiro onde se joga o futuro da democracia, o candango comum se preocupa com o metrô superlotado, com a calçada que sumiu sob o mato, com o posto de saúde que fechou mais cedo. Ser candango não é apenas uma bela herança etimológica dos pioneiros que chegaram com a poeira da construção. Ser candango é um ato político.

Conforme o IBGE, este território tem a maior desigualdade de renda do país, com 4,7% da população vivendo com menos de um quarto do salário mínimo per capita. Dados que não cabem no cartão-postal da cidade brasileira com o maior rendimento médio.

O turismo bate recordes. Segundo a Secretaria de Turismo do Distrito Federal, foram 111 mil visitantes estrangeiros em 2025, um salto superior a 60% em relação ao ano anterior. Dados da Embratur indicam que esse foi o melhor resultado da história, com destaque para as chegadas pelo Aeroporto de Brasília, que cresceram 78%. Muitos dos visitantes participam da Marcha das Mulheres Negras ou do Acampamento Terra Livre, assistem algum espetáculo no Mané Garrincha, e antes de irem embora postam, em sua rede social de preferência, uma foto ou vídeo em frente ao Palácio da Alvorada ou da Catedral. E tudo bem.

Brasília é uma obra em aberto que não se resume ao seu Plano Piloto. Ela se espraia por Ceilândia, Taguatinga, Samambaia, Planaltina, São Sebastião, por cada canto do DF onde se vive, cria-se e se resiste. Brasília, como território urbano, é bem maior do que os monumentos ao longo da Esplanada dos Ministérios.

Considero esse paradoxo uma potência. A cidade acolhe as dores cotidianas; a capital projeta os sonhos nacionais. Brasília nasceu da utopia. E a utopia, quando bem cultivada, vira cultura. Dos anos 70 aos 90, por exemplo, só para ficar com poucos nomes entre os vários significativos, a cidade fervilhou com a música de Liga Tripa, Legião Urbana, Capital Inicial, Cássia Eller, Renato Matos, Plebe Rude, Natiruts e GOG; com o teatro de Dulcina de Moraes, Hugo Rodas, Ribamar Araújo, Cláudio Falcão, Alexandre Ribondi e Madelon Cabral; com a literatura de Cassiano Nunes, Nicolas Behr, Anderson Braga Horta e Cristiane Sobral; com o cinema de Vladimir Carvalho e Afonso Brazza; artistas como Athos Bulcão, Seu Teodoro, Galeno, Gê Orthof, Toninho de Souza... Ufa!

Se pareciam poucos, faziam muito. O DF continua produzindo cultura, entretanto, muitos são os artistas e intelectuais que migram em busca de oportunidades. Faltam no quadradinho políticas públicas, de empregabilidade e cultura, inovadoras e financiadas com continuidade, não apenas enquanto editais intermitentes, e sim como um sistema que reconheça a capitalidade cultural como vetor de desenvolvimento tão importante quanto a capitalidade política.

A obra mais relevante na capital não é de concreto e vidro. É a própria sociedade civil, aquela dos movimentos por moradia que ocupam vazios urbanos; dos coletivos de cultura periférica que inventam festivais em quadras poliesportivas; das mães que organizam creches comunitárias; de todo brasiliense que se levanta para cuidar do que é comum, que reinventa a cidade diante da ausência do Estado, que costura vizinhanças e tece solidariedade.

Imagine se os corredores culturais da cidade não servissem apenas para eventos pontuais, mas para intercâmbios artísticos permanentes entre as cinco regiões do país. Se as superquadras e as "cidades-satélites" abrigassem residências artísticas, se os teatros tivessem orçamento garantido, se os candangos consumissem a própria produção sem dependerem do selo de aprovação do eixo Rio-São Paulo. Não se trata de copiar ninguém. Trata-se de cuidar da originalidade que está aqui, na mistura de modernismo com a ginga de quem vem de todos os cantos do mundo para construir Brasília.

A cidade e a capital se reconhecerão quando não mais temermos o oxímoro que é Brasília: ao mesmo tempo local e nacional, periférica e central, moderna e popular. Esse encontro virá das calçadas, das feiras, das bibliotecas comunitárias, das rodas de samba, das batalhas de rima, da ocupação dos gramados e pilotis, das margens do Lago Paranoá, para que não haja só espaços de passagem, mas sobretudo de pertencimento, onde os atuais candangos criem mais territórios de afeto, para reinventarem, a cada dia, o sentido de viver na capital do Brasil.

 

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