ARTIGO

Urnas eletrônicas: 30 anos em prol da democracia

A urna eletrônica veio, sobretudo, para afastar as fraudes, para tornar mais seguras as eleições. Ela está engajada na revolução dos computadores

Urnas fazem 30 anos -  (crédito: Maurenilson Freire/CB/DA.Press)
Urnas fazem 30 anos - (crédito: Maurenilson Freire/CB/DA.Press)

Por CARLOS MÁRIO DA SILVA VELLOSO* — No dia 13 de maio, data em que as primeiras urnas eletrônicas foram enviadas aos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) — 13 de maio de 1996 —, a urna eletrônica completará 30 anos de sucesso, utilizadas pela primeira vez nas eleições de 1996, que foram presididas pelo ministro Marco Aurélio.

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No trabalho em que escrevi a respeito do tema — Urnas eletrônicas, um pouco de sua história, publicada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em Balanço das eleições, 2014 —, em prefácios que fiz e em entrevistas que concedi, contei como a urna foi idealizada e o ideal concretizado.

Tudo começou com uma conversa, num intervalo de partidas de tênis, no Clube Naval de Brasília, com o técnico em informática Paulo César Bhering Camarão. Empossado na presidência do TSE, em dezembro de 1994, submeti a matéria à apreciação do Tribunal, que decidiu pela informatização do voto. Nomeei, então, uma grande comissão, integrada por juristas, cientistas políticos, técnicos em informática, que a mídia denominou de Comissão de Notáveis. Dessa comissão, formamos cinco comissões temáticas, todas elas presididas por ministros do TSE — Reforma do Código Eleitoral, Reforma Partidária, Reforma do Sistema de Voto (voto proporcional, voto distrital), Financiamento das Campanhas Eleitorais e a Comissão de Informatização do Voto. Concluídos os trabalhos, foram eles remetidos aos presidentes da República, do Senado, da Câmara dos Deputados e do Supremo Tribunal Federal (STF).

Com base nas diretrizes elaboradas pela Comissão de Informática, um grupo de trabalho foi formado com técnicos do melhor nível para tornar realidade o protótipo da urna, sob a liderança de Paulo Camarão. O TSE e os TREs tinham e têm excelentes técnicos. Mas o TSE procurou apoiar-se também no que o Brasil tinha de melhor no campo do conhecimento tecnológico existente à época. Firmamos convênios com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e com o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). Buscamos apoio em outros centros de conhecimento tecnológico, o Ministério de Ciência e Tecnologia, a Telebrás, órgãos técnicos estaduais. O então governador de Minas, Eduardo Azeredo, ele próprio um técnico em informática, colocou à nossa disposição o serviço de informática do estado. Os ministérios militares mandaram os seus técnicos. Paisanos e militares trabalharam em conjunto pelo Brasil.

Por que o TSE pensou em instituir a informatização do voto?

Em Urnas eletrônicas, um pouco de sua história, tudo isso é contado em pormenor. A preocupação maior era com as fraudes, que ocorriam principalmente na apuração dos votos neste país continental. Ocorreu em 1994, nas eleições no Rio de Janeiro, uma grande fraude eleitoral, o que levou o TRE do Rio a anular parte das eleições. Pensamos: se isso ocorreu no Rio de Janeiro, tambor do Brasil — o que ocorre no Rio ressoa em todo o país —, o que não estaria ocorrendo nos estados mais distantes. Algo teria que ser feito. Já tínhamos o cadastro eletrônico do eleitorado, o que se fez na presidência do ministro Néri da Silveira. Em 1994, o TSE, na presidência do ministro Sepúlveda Pertence, totalizou os votos. A solução seria a informatização do voto. Era, aliás, o que faltava. Mas tornava-se necessário criar um computador acessível aos analfabetos e semialfabetizados, ao povo em geral, e que fosse totalmente seguro, de custo baixo, e que os votos pudessem ser apurados num prazo razoável. A demora que ocorria na apuração dos votos pela mão humana era longa, com prejuízo para a economia e para o andamento dos serviços públicos e privados.

A urna eletrônica veio, sobretudo, para afastar as fraudes, para tornar mais seguras as eleições. Ela está engajada na revolução dos computadores. Tudo hoje é informatizado, bancos, comércio, sociedades empresárias, cartões de crédito, repartições públicas, tribunais, empresas aéreas, aeroportos. A urna eletrônica é auditável antes, durante e depois das eleições. Ela veio para ficar. Duas coisas, aliás, bem brasileiras, criadas sem alarde, têm despertado interesse internacional: a urna eletrônica e o Pix.

A urna eletrônica torna mais legítimas as eleições— assim, a democracia que praticamos. Ela é auditável, vale enfatizar, antes, durante e depois das eleições, fazendo mais legítima a democracia, que Winston Churchill, com a fleuma britânica que o caracterizava, proclamou que "é o pior dos regimes políticos, com exceção de todos os outros que foram praticados".

A urna eletrônica brasileira nos faz orgulhosos de ser brasileiro.

*Ministro aposentado, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), professor emérito da UnB e da PUC/MG, advogado

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Por Opinião
postado em 03/05/2026 06:02
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