
Passado o impacto do enquadramento do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelo governo de Donald Trump, não se escutou de nenhum especialista sério de que foi uma medida capaz de possibilitar aos brasileiros fecharem essas chagas. Ao contrário. Nas entrevistas que se seguiram em análise da situação, houve uma unanimidade: a decisão enfraquece a guerra contra o crime organizado, pois a retira do âmbito de quem entende e a remete a organismos que nunca conseguiram resultados efetivos no combate aos cartéis das drogas.
Eleitoralmente, serviu para a direita brasileira desfiar o surrado rosário de soluções rasas, barulhentas e brutais. Para a esquerda e o governo, restaram duas certezas: a primeira, de que a histórica ingenuidade acadêmica é, hoje, indefensável e nada pragmática; a segunda, de que custou-se a perceber que mais do que a economia, é a violência que apavora há muito tempo a maior parcela dos brasileiros.
Uma das vozes mais contundentes contra a decisão do governo Trump é o promotor de Justiça Lincoln Gakia. Há pelo menos 20 anos, investiga o PCC e está marcado para morrer pela facção. No livro O Brasil livre das máfias, do qual é coautor com o jurista Walfrido Warde, há uma definição sobre o que são essas organizações criminosas. De tão cristalina, só não é compreendida por quem não quer.
"O crime organizado do dia de hoje é atividade econômica organizada, é uma empresa, que reúne meios, materiais e humanos, com vistas à obtenção de lucros, por meio da prática sistemática e profissional de crimes. O crime organizado de tipo mafioso se tornou uma estrutura dos sistemas político, econômico e social, que decorre da incapacidade do Estado de prover segurança, justiça e bem-estar, e que se desenvolve na simbiose entre mercados lícitos e ilícitos, corrupção institucional e fragilidades socioeconômicas" (página 70).
Outro jurista, Walter Fanganiello Maierovitch, expõe de modo definitivo o oportunismo político norte-americano com a chamada "guerra às drogas" no livro Máfia, poder e antimáfia. Mostra, nas páginas 195 e 196, como "a War on Drugs começou em decorrência de uma situação politicamente embaraçosa para o então presidente norte-americano Richard Nixon", em razão de os combatentes no Vietnã voltarem para casa dependentes da heroína asiática, para uma ampliação conduzida por Ronald Reagan, legitimando os EUA "a dar combate às drogas, sem respeitar fronteiras."
A extensão dos efeitos do enquadramento do PCC e do CV como organizações terroristas ainda está sendo descortinada. Mas é fácil perceber, primeiramente, que tornou-se um supertrunfo nas relações entre EUA e Brasil. Ostensivamente, aumenta a pressão para o afastamento paulatino da China — nosso maior parceiro comercial — e rebaixa as negociações comerciais a um nível que indica sujeição. A ampliação do alinhamento ideológico do Ocidente aos ditames de Washington é pilar da política externa dos EUA.
O passo atrás representa a necessidade de rápida reorganização das instituições nacionais. Para evitar o congelamento de acordos de cooperação e trocas de informações entre os dois países, a diplomacia brasileira terá de dobrar o expediente junto ao Departamento de Estado e mostrar avanços concretos contra as duas facções. Isso forçará a articulação do Palácio do Planalto a demonstrar maior efetividade em fazer andar a PEC da Segurança. Parada no Senado, está ao sabor dos humores do presidente da Casa, Davi Alcolumbre, que sequer a distribuiu para análise nas comissões.
Esse esforço não inclui somente o governo. Tal como no tarifaço de 50%, as instituições afetadas terão de entrar em campo. Aqui, há um grande peso sobre a Faria Lima, por conta da participação no Sistema SWIFT, de rastreamento monetário. Há muito que seus executivos sabem que baixa credibilidade, opacidade e insegurança não combinam com investimentos. Agora, terão de fazer disso um mantra por obra e graça do governo Trump.
