O ano de 2026 avança, e o mundo ainda não se debruçou sobre um importante relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado em janeiro, que marcou uma mudança histórica na forma como a instituição internacional trata a gestão da água. O estudo, elaborado a partir da análise de dados globais de lagos, aquíferos e geleiras, concluiu que o uso do recurso ultrapassou permanentemente a capacidade de renovação natural. Diante da constatação, o documento substituiu oficialmente o termo "escassez" pelo conceito de "falência hídrica", descrevendo uma situação de insolvência ecológica.
O cenário dramático, no qual o consumo e a poluição superam a capacidade de reposição espontânea, exige uma mudança drástica de paradigma. Em dezembro, na Conferência da Água da ONU, nos Emirados Árabes Unidos, é esperado que os países apresentem propostas de soluções à altura dos desafios. Antes disso, em outubro, os candidatos a governantes do Brasil, que ocupa espaço de destaque mundial sobre o tema, têm o compromisso interno, nas eleições, de apresentar projetos engajados nessa causa.
No Congresso, a discussão sobre o recurso natural já vem assumindo contornos relevantes. Parte do atual debate, que deixou de ser unicamente ambiental e entrou nos campos econômico e jurídico, tira a água do contexto de bem comum para considerá-la um ativo que pode ser precificado.
Alguns eixos principais movimentam o Legislativo. Um deles diz respeito à segurança nacional, de forma a impedir que reservas passem a ser controladas por estrangeiros. Ainda no ponto da soberania, a proteção dos aquíferos parece ser consenso, com diferentes partidos apontando para a necessidade de assegurar que os reservatórios fiquem em mãos brasileiras. Outra vertente, por sua vez, defende que o país utilize sua abundância hídrica como "moeda de troca" em acordos comerciais internacionais.
Mas um impasse precisa ser resolvido: o uso para a agricultura, que, segundo dados da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), é o setor que mais consome o recurso dos mananciais — 52% das retiradas totais de acordo com a última atualização. Também complexa é a questão da perda, como ocorre em vazamentos, apontada na ordem de 40% da água tratada no país.
Fato é que, cada vez mais, a tendência é a troca do modelo de resposta a crises para o de administração permanente de insuficiência, com a água ganhando posição de mercado em uma realidade restritiva e ocupando, assim, um lugar estratégico no tabuleiro global. Para o Brasil, a falência hídrica decretada pela ONU chama à responsabilidade toda a sociedade.
Dono da maior reserva de água doce superficial e subterrânea do planeta, o país precisa encontrar caminhos para a preservação dos seus mananciais. Garantir o uso para todos, aceitar que os níveis históricos não voltarão, planejar ações com base na disponibilidade reduzida e criar barreiras contra interesses de fora são medidas que os brasileiros precisam avaliar.
A água não suporta mais ser negligenciada, como ocorre há séculos. É preciso cuidar desse ativo considerando, especialmente, a sobrevivência — os demais valores devem vir depois. A transição para uma gestão da água justa e eficiente, que não permita desigualdades no abastecimento, é a saída para evitar um colapso social e econômico.
