Maurício Antônio Lopes — pesquisador e ex-presidente da Embrapa
Na última safra, um produtor do Centro-Oeste colheu mais soja por hectare do que em qualquer safra anterior. Investiu em sementes, corrigiu o solo com precisão e utilizou tecnologia de ponta para monitorar a lavoura. No papel, fez tudo certo, mas, ainda assim, ao fechar as contas, sua margem encolheu. Produziu mais, mas o preço internacional recuou, os custos subiram e boa parte do valor gerado ficou fora da porteira.
Entre a safra 2000/01 e a safra 2022/23, a produção brasileira de grãos mais que triplicou, passando de cerca de 100 milhões para aproximadamente 323 milhões de toneladas, segundo a Conab. A soja acompanhou esse avanço, com expansão de área e ganhos de produtividade, apoiados em melhores sementes, manejo e mecanização. Ainda assim, estudos do Cepea/USP mostram que, em safras recentes, a queda nos preços dos grãos e o encarecimento dos insumos vêm reduzindo o ganho do produtor.
Essa desvantagem da produção primária fica mais evidente quando caem os preços internacionais e sobem os custos de fertilizantes, defensivos, máquinas e crédito. O produtor assume grande parte dos riscos, mas retém uma parcela limitada do valor final. Assim, mesmo quando a produtividade é alta, as margens podem encolher, e apenas uma fração limitada do valor acumulado ao longo da cadeia retorna à fazenda.
O resultado é um sistema muito eficiente em gerar volume, mas desigual na distribuição do valor criado. Essa assimetria não é acidental. No modelo econômico dominante, cadeias abertas, competitivas e globalizadas tendem a favorecer os elos com maior escala, informação e poder de mercado. Para a produção primária, exposta a clima, preços, câmbio e custos sobre os quais tem pouco controle, construir relações mais equilibradas tem se tornado uma tarefa cada vez mais difícil.
Essa realidade aparece com mais força em cadeias nas quais o produtor entrega qualidade, mas não controla os elos que a transformam em valor. Café, cacau, leite, frutas e hortaliças podem ganhar preço por origem, marca, processamento, certificação, regularidade e acesso ao consumidor. Mas grande parte desse valor costuma ser capturada depois da porteira. Para muitos produtores, o desafio não é apenas produzir melhor, mas participar das etapas em que o valor é reconhecido e remunerado.
A agricultura brasileira, por sua eficiência e forte presença nos mercados globais, está cada vez mais pressionada por essa lógica. Safras recordes e ganhos de produtividade consolidaram o país como potência agrícola. Mas esse sucesso convive com uma realidade desconfortável, cada vez mais percebida no campo. Muitos produtores se tornam mais eficientes, mas retêm uma parcela menor do valor que ajudam a gerar.
Essa tensão aparece no dia a dia da produção. O produtor vende em mercados globais sujeitos a fortes oscilações, enquanto compra insumos, tecnologia e crédito em mercados muitas vezes concentrados e caros. Quando os preços caem, a reação mais comum é ampliar a escala para compensar perdas. Mas, quando muitos fazem o mesmo, a oferta aumenta, os preços ficam pressionados e a rentabilidade volta a cair.
Por isso, a saída não está em produzir cada vez mais como única resposta, nem em rejeitar os mercados. A eficiência produtiva, embora indispensável, já não basta para sustentar uma agricultura resiliente. Quando o produtor assume riscos elevados, mas tem pouco controle sobre preços, custos e condições de venda, torna-se necessário ampliar a agenda. Além de produzir mais e melhor, será preciso discutir captura de valor, gestão de riscos e formas mais equilibradas de organização das cadeias.
Algumas direções parecem especialmente importantes. A primeira é fortalecer a organização dos produtores, com cooperativas, alianças produtivas, redes de compra e venda e plataformas de comercialização. A segunda é avançar em diferenciação e agregação de valor. Nem toda produção conseguirá escapar da lógica das commodities, mas há espaço para valorizar melhor atributos como qualidade, origem, sustentabilidade, rastreabilidade e regularidade de oferta.
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Também será necessário aperfeiçoar políticas de gestão de risco e estabilização de renda, reduzindo a exposição dos produtores a preços, câmbio, clima e custos. Ao mesmo tempo, a transição energética e a bioeconomia podem abrir novas fontes de receita, com mercados ligados a carbono, bioinsumos, biomateriais e biomassa para energia. Mas essas oportunidades só se tornarão reais com regras claras, organização produtiva, assistência técnica e estratégias consistentes de inserção nos mercados.
O desafio é reequilibrar um sistema muito eficiente em produzir, mas ainda desigual na distribuição do valor gerado. Produzir mais continuará sendo necessário, mas será cada vez menos suficiente. O futuro da agricultura brasileira dependerá da capacidade de capturar melhor valor, reduzir vulnerabilidades e reposicionar o produtor em cadeias mais equilibradas e resilientes.
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