ARTIGO

Quando a corrupção sangra a democracia

A corrupção faz o povo pagar a conta, rebaixa a política, confunde os honestos com os desonestos e expõe as instituições à humilhação

Maria Fátima Sousaprofessora titular do Departamento de Saúde Coletiva e ex-superintendente do Hospital Universitário da Universidade de Brasília (HUB)

 

A corrupção não é um crime contra o patrimônio público, mas uma violência contra a democracia, pois desvia recursos, compromete políticas públicas, amplia desigualdades e rompe a confiança que sustenta a vida republicana. Quando se torna prática tolerada ou banalizada, não corrói somente governos, corrói a ideia de que a política pode servir ao bem comum.

Democracias não morrem de uma vez, afirmam Steven Levitsky e Daniel Ziblatt; se enfraquecem aos poucos, por dentro, quando normas éticas são relativizadas, instituições desacreditadas e a sociedade naturaliza desvios que deveriam nos indignar. A corrupção enfraquece a confiança coletiva, alimenta o cinismo e faz crescer a percepção de que o Estado foi capturado por interesses pessoais. 

Seu maior efeito é a redução do orçamento que deveria financiar direitos, pois cada recurso desviado representa menos atendimento na saúde, menos vagas na educação, insegurança nos territórios, deficit na infraestrutura e na ciência, menos proteção social — portanto, não se trata de uma abstração contábil. A corrupção se traduz na fila que não anda, no remédio que falta, na escola precarizada, na estrada interrompida, no serviço público que deixa de alcançar quem mais precisa.

É o povo quem paga a conta, pois, enquanto os mais ricos compram soluções privadas para compensar a fragilidade do Estado, a população depende de políticas públicas íntegras. E, quando o dinheiro público é apropriado por poucos, a miséria social se aprofunda. Sobre esse tema, Pierre Bourdieu nos orienta que a exclusão não nasce apenas da ausência de renda, mas também da experiência cotidiana de abandono, invisibilidade e perda de reconhecimento. Logo, a corrupção produz um tipo de sofrimento social que retira dos cidadãos não só recursos, mas também a certeza de que pertencem a uma comunidade política que os considera dignos. 

Michael Sandel também nos convida a pensar a vida pública além de interesses individuais e cálculos utilitários, recolocando o debate da virtude cívica, a responsabilidade coletiva e o bem comum. Para ele, a corrupção é a negação desse horizonte que transforma o mandato em negócio, o cargo em privilégio, a função pública em instrumento de ganho privado, e, ao fazê-lo, corrói a noção de que governar é exercer uma responsabilidade moral perante os outros. 

Quando a corrupção avança, a política perde credibilidade e força, disseminando a descrença e a falsa narrativa de que toda atividade política é suspeita, e esse é um dos seus efeitos mais perversos, quando agentes públicos sérios, comprometidos com a legalidade e com o interesse social, são lançados na mesma vala comum da opinião pública. Estou falando do ápice daqueles que desejam enfraquecer a política como espaço legítimo de mediação democrática e do exercício "do poder que emana do povo" e em seu nome será exercido, como dita o artigo 1º da Constituição Federal.

Desqualificar a política como se toda representação fosse corrompida abre caminho para soluções autoritárias mascaradas de moralização. A história recente nos traz discursos usados para atacar partidos, parlamentos, imprensa, tribunais e movimentos sociais, convertendo a justa crítica aos desvios em descrédito das instituições e da vida democrática. A indignação contra a corrupção é legítima, mas sua instrumentalização para ruir a democracia, não, pois não há democracia sem política.

Grave tanto quanto o desvio de recursos é o enfraquecimento das instituições democráticas de direito. Quando práticas corruptas se repetem, a impunidade é tida como regra; quando a lei parece alcançar alguns e poupar outros, as instituições sangram em praça pública. Perdem autoridade, deixam de inspirar confiança e passam a ser vistas como incapazes de proteger o coletivo. Assim, prosperam o ressentimento, a radicalização, a desinformação e a desconfiança.

Prevenir e combater a corrupção exige mais do que punir culpados, exige proteger a República. Para isso, requer instituições de controle independentes, transparência ativa, imprensa livre, participação social, educação cidadã e compromisso com a legalidade. Exige ainda que o combate à corrupção não seja seletivo ou submetido a conveniências eleitorais. A ética pública não pode ser bandeira ocasional, mas, sim, inegociável na vida política, onde o clientelismo, o fisiologismo, a troca de favores, o uso privado da máquina pública, a distribuição de benefícios em detrimento de projetos coletivos não sobrevivam. 

Precisamos educar as novas gerações de que a coisa pública não pertence a governos, partidos ou grupos de poder. O Brasil não pode aceitar a corrupção como inevitável, nem permitir que a indignação ética seja capturada por projetos que desprezam a democracia. A corrupção rouba o orçamento, oportunidades e a dignidade. Faz o povo pagar a conta, rebaixa a política, confunde os honestos com os desonestos e expõe as instituições à humilhação. Enfrentá-la, não é apenas uma agenda moral, é uma exigência democrática, social e civilizatória.

 

 

 

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