Há indicadores consolidados para determinar a obesidade — o IMC, a circunferência abdominal e balanças que aferem o percentual de gordura corporal estão entre os mais comuns —, mas um dos maiores estudos já realizados sobre a doença no mundo lança luz sobre a necessidade de começar a olhar para as suas particularidades. Segundo a pesquisa divulgada nesta quinta-feira na renomada revista Nature, o excesso de peso entrou em uma fase que exige nova perspectiva de enfrentamento. Em vez de ser entendido como uma epidemia global, deve ter sua faceta socioeconômica priorizada pelos gestores públicos.
Os ponteiros sobem em boa parte do planeta, é verdade, mas o fenômeno é bem mais expressivo em regiões marcadas por falhas na urbanização, dificuldades no acesso a alimentos saudáveis, alto índice de sedentarismo, acentuada desigualdade social, entre outras mazelas. O peso da balança, portanto, é social. "Chamar esse fenômeno globalmente de 'epidemia' acaba mascarando essas diferenças importantes e simplificando excessivamente um processo complexo e dinâmico", enfatizou, em nota, Alicia Matijasevich. Professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Matijasevich é uma das autoras do artigo publicado na Nature.
A rede internacional de cientistas analisou a dinâmica da obesidade em 197 países, englobando 4.050 estudos de base populacional — com dados de áreas urbanas e rurais —, nos últimos 40 anos. Entre as constatações, está a de que, enquanto os países de alta renda conseguiram estabilizar a obesidade — na França, por exemplo, ela se manteve entre as crianças durante o período analisado —, o Sul Global segue na contramão: o avanço foi maior em 2024 do que em qualquer outro ano desde 1980.
O Brasil aparece no relatório como exemplo de país que, mesmo tendo atingido um pico elevado da doença, não dá sinais de estabilização. A obesidade acelerou em ambos os sexos e faixas etárias, e os autores chamam a atenção para o crescimento contínuo sobretudo entre homens adultos, evidenciando mais investigações sobre a influência da questão de gênero.
Outro alerta para os países em desenvolvimento é de que os esforços no combate à desnutrição não foram acompanhados por respostas regulatórias ao aumento do consumo de ultraprocessados e outros produtos pouco saudáveis. O que se vê é a saída civilizatória do mapa da fome para um mergulho preocupante na obesidade, com impactos sistêmicos volumosos. Ela está vinculada, por exemplo, a intercorrências que demandam suportes de saúde de alta complexidade, como infarto e cânceres.
Levantamento recente do Instituto Desiderata mostra que só a obesidade infanto-juvenil poderá gerar custos diretos da ordem de R$ 3,8 bilhões ao Sistema Único de Saúde até 2060, sendo que 95% das despesas estarão ligadas a internações hospitalares. O contraponto é que a implantação agora de políticas públicas eficazes reduziria ao menos em 10% a obesidade infantil, resultando em uma economia de mais de R$ 1 bilhão ao SUS, mais de 70,8 mil vidas salvas, entre outros benefícios.
Ao ser questionado pelo Correio sobre quais medidas estruturais precisam ser adotadas para frear o problema no país, o médico Carlos Schiavon, cofundador da ONG Obesidade Brasil, elencou a medida de ouro, voltada justamente para os mais jovens: "Investir fortemente na alimentação infantil saudável nas escolas em tempo integral". Apenas uma em cada quatro crianças tem acesso hoje à jornada educacional estendida no país, e não é exagero afirmar que falta equilíbrio a todos esses cardápios. Sinais evidentes de que a receita dos especialistas em saúde precisa chegar aos gabinetes do poder.
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