
Com grande repercussão nas redes, o vídeo de um homem que simula beber todo um frasco de detergente e termina fazendo um gesto obsceno aos "petistas" é o mais novo capítulo de como temas ligados à saúde chegam ao campo das disputas eleitorais da forma mais abjeta e perigosa possível. A gravação mobilizou anônimos e personalidades — incluindo políticas — para um campo de enfrentamento muito distante do que, de fato, ameaça o bem-estar da população. Enquanto diversionismo, negacionismo e vale-tudo eleitoral entram em cena, riscos reais à vida dos brasileiros ganham força, como doenças infecciosas já erradicadas.
A razão da nova onda de sandices é um episódio corriqueiro das instâncias regulatórias. Diante da constatação da venda de produtos Ypê cuja fabricação tem "falhas nos sistemas de garantia da qualidade, produção e controle de qualidade", a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou o recolhimento das mercadorias. Nos últimos dias, processo semelhante aconteceu com lotes de canela em pó (presença de pelo de roedores), fubá (origem desconhecida), protetores solares e repelentes (produzidos com fórmulas diferentes das autorizadas) e sardinha (presença da bactéria Salmonella). Até não especialistas reconhecem que as razões justificam as medidas adotadas, e nenhuma dessas decisões do órgão regulador viralizou.
No caso Ypê, a empresa classificou a decisão da Anvisa de "arbitrária e desproporcional" e apresentou a sua defesa pela reconsideração, o que também faz parte do rito regulatório. Foge à normalidade o discurso disseminado de que uma agência de Estado age conforme interesses do governo federal a partir de resultados de uma inspeção feita em parceria com um órgão estadual. Há de se destacar que os dois Executivos em questão são de campos político-ideológicos distintos, o que torna as acusações ainda mais esdrúxulas.
Contaminar a pauta política/eleitoral com terrorismo sanitário é estratégia que ganha força no país desde a pandemia da covid-19. No auge da crise, o então presidente da República afirmou que não recomendava a vacina porque os imunizados desenvolveriam Aids — síndrome infecciosa que, nas décadas de 1980 e 1990, foi chamada de "peste do século" pela alta taxa de mortalidade e pela falta de conhecimento científico sobre a doença. Hoje, o arsenal para tratar a Aids é eficaz e está bem fundamentado que os imunizantes contra o coronavírus salvaram milhões de vidas — e seguem salvando. Da mesma forma, há pesquisas mostrando que o elevado número de mortos no Brasil — mais de 700 mil — tem o negacionismo como uma das razões principais e que o movimento antivacina foi impulsionado por declarações falaciosas de autoridades.
É real e deveria mobilizar eleitores o fato de que a baixa cobertura vacinal coloca o país na delicada condição de reintrodução da poliomielite. Que casos de coqueluche, sarampo e meningite aumentam em ritmo acelerado, sobretudo em crianças, pelo mesmo motivo. Que o Brasil enfrenta um ritmo acelerado de envelhecimento de sua população e precisa organizar um sistema de saúde que dê respostas a esse complexo fenômeno. E que esse mesmo país ainda perde crianças por enfermidades evitadas pela oferta de saneamento básico.
Não se pode lançar acusações levianas sobre um órgão dedicado a questões tão basilares para a vida em sociedade. As consequências de tamanha irresponsabilidade ultrapassam o calendário das disputas eleitorais.
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