ARTIGO

A armadilha histórica, a baixa riqueza e a alta desigualdade no Brasil

Em momentos de bonança, a riqueza cresce e a desigualdade, também. Em momentos desafiadores, a desigualdade impede que a renda cresça, se mantendo cristalizada. É assim desde sempre

Por Vinicius Müller*

Os resultados da pesquisa sobre a riqueza e a desigualdade de renda no Brasil apontam para a reprodução de certos padrões históricos de comportamento da economia brasileira. Os dados divulgados pelo  Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística  (IBGE) no início de maio revelam o crescimento da renda e da desigualdade no país. No primeiro caso, o Brasil alcançou a maior renda média da história, de R$ 3.367, representando um aumento de 5,4% em 2025. Já a desigualdade cresceu, variando de 0,487 para 0,491 pelo índice de Gini.

No curto prazo, os motivos são conhecidos. As taxas de desemprego baixas e juros altos ajudam a entender por que a renda do trabalhador aumentou, assim como a desigualdade. A relação entre eles é parte da explicação. Gastos públicos em ascensão ajudam na ampliação da renda, seja por programas de transferência, seja pelo estímulo à demanda. Por outro lado, os mesmos gastos pressionam as contas públicas e a inflação, elevando as taxas de juros. Com os juros altos, a renda derivada de investimentos sobe. O que explica o aumento da desigualdade. Ou seja, a riqueza cresceu para todos, porém, muito mais para aqueles que dependem menos do trabalho ou de programas sociais. 

Já numa perspectiva histórica, os dados da pesquisa dialogam com outras dimensões. Uma delas é que o aumento da riqueza no Brasil ocorre por espasmos. E desde o início do século 20 esse padrão é percebido. Um gráfico da riqueza no país durante os últimos 120 anos mostra a gangorra entre períodos acentuados e quedas relativamente bruscas. Foi assim com a expansão do café no início do século passado, com a Era Vargas, com Juscelino Kubitschek, durante o "milagre' militar e com a combinação entre a estabilidade do Plano Real e o boom das commodities na virada para o século 21. Todas essas 'bolhas' foram sucedidas por crises econômicas. O que indica uma dificuldade histórica em mantermos, com mais constância, o crescimento da riqueza. 

Nesse sentido, a qualidade dessa expansão da riqueza ganha relevância. Ou seja, quais setores crescem, como está distribuído tal crescimento e quão sustentável ele é. A ampliação da renda do trabalho, embora seja a melhor situação possível, deve ser vista em conjunto com a qualidade e com o comportamento da produtividade. E nesses itens não estamos tão bem. O aumento da renda não ocorre pela ampliação de trabalhos mais sofisticados. E a produtividade média no Brasil praticamente não cresce há três décadas. 

É nesse ponto que a desigualdade cresce. A ampliação do trabalho sofisticado é ainda quase que exclusivo para aqueles com melhor posição econômica e social. Um exame mais cuidadoso revela que a competição por essas ocupações é baixa, dado que é feita por parcelas pequenas da população. Sem essa competição, embora trabalhos mais sofisticados tendem a apresentar maiores ganhos de produtividade, o estímulo às melhorias também é baixo. Ou seja, os ganhos de produtividade são muito menores do que poderiam ser. Dessa forma, transfere-se para os ganhos de renda a preferência dos agentes mais bem posicionados na escala social e econômica. E não para os ganhos do trabalho e da produtividade.  Em outras palavras, a desigualdade que reduz a verdadeira competição pelos trabalhos mais qualificados e produtivos cria um desincentivo entre aqueles que estão mais bem posicionados na escala social, amparados por ganhos de investimento sob taxas de juros altíssimas. Poucos, entre os membros da elite brasileira, estão se preparando para serem mais competitivos, e, sim, para evitarem mais concorrência. 

Sobra ao agente público, espremido pelo labirinto dos gastos e pelas pressões políticas, equilibrar transferências sociais e ganhos eleitorais. Por isso, gasta-se mais do que pode e comemora o aumento da renda e, em geral, do consumo, criando uma armadilha de juros que garante aos mais ricos ganhos ainda maiores. Economia do afeto para os que estão presos aos trabalhos de baixa qualificação, ganhos de rendimento para os 'amigos do rei'.

Assim, a desigualdade, ao contrário do crescimento, é histórica e permanente. Em momentos de bonança, a riqueza cresce e a desigualdade, também. Em momentos desafiadores, a desigualdade impede que a renda cresça, se mantendo cristalizada.  É assim desde sempre. E continuará assim se o padrão de comportamento continuar o mesmo. Baixa produtividade, educação subvalorizada, pouca competição, irresponsabilidade fiscal e estímulo aos "caçadores de renda". Ou seja, crescimento esporádico e persistente desigualdade. 

* Vinicius Müller é doutor em história econômica e professor da Faculdade Belavista.

 


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