
Marcelo Senise — sociólogo, presidente do Instituto Brasileiro para a Regulamentação da IA (Iria) e autor do livro A delicada (ou não) arte da desconstrução política
O cenário político brasileiro em 2026 acende um alerta grave sobre a integridade democrática. Em vez de reduzir distorções, a tecnologia tem ampliado vulnerabilidades em ritmo superior à capacidade de resposta das instituições. Dados do Observatório IA nas Eleições mostram uma realidade inquietante: dois em cada três conteúdos produzidos com inteligência artificial circulam nas redes sem qualquer sinalização de sua natureza sintética. Não se trata apenas de descumprimento das normas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O que está em curso é a abertura de um vazio regulatório, técnico e ético que favorece disputas judiciais em larga escala e corrói, de forma silenciosa, a confiança pública.
A transparência, que deveria ser princípio elementar da comunicação política, tornou-se exceção. Quando peças publicitárias, vídeos e postagens passam a ser disseminados sem identificação clara, o eleitor perde uma referência essencial para julgar o que vê. Esse ambiente embaralha as fronteiras entre autenticidade e simulação e compromete a soberania do voto consciente. Mais do que um desafio operacional para as plataformas e para a Justiça Eleitoral, isso revela uma mudança preocupante: a política deixa de ser um espaço de encontro humano e passa a ser mediada por artefatos que imitam a realidade com precisão crescente, mas sem compromisso com a verdade.
Há ainda um efeito subjetivo profundo. O excesso de polimento, a ausência de falhas naturais e a perfeição artificial das mensagens empurram o cidadão para aquilo que a ciência descreve como "vale da estranheza". Quando tudo parece impecável demais, algo se rompe na percepção. A comunicação deixa de soar humana e passa a despertar desconfiança. O eleitor pode até não identificar tecnicamente a manipulação, mas percebe que há algo sem densidade, sem vida, sem convicção. É a política transformada em avatar: correta na superfície, vazia no conteúdo, calibrada por algoritmos para parecer aceitável, mas incapaz de transmitir verdade.
Nesse contexto, cresce a ilusão de que campanhas serão mais seguras quanto mais conseguirem sanitizar seus candidatos. É um erro. Ao remover hesitações, contradições e marcas pessoais, produz-se uma desumanização involuntária. A comunicação política perde presença, perde calor e perde vínculo. A inteligência artificial pode ser útil como instrumento de análise, monitoramento e organização estratégica. Pode apoiar diagnósticos, mapear tendências e ampliar a capacidade de reação. Mas não pode ocupar o lugar da voz humana. Quando a tecnologia deixa de ser suporte e se converte em rosto da comunicação, o debate público passa a operar sob uma lógica de laboratório, e não de representação.
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O problema, por isso, não será resolvido apenas com a judicialização posterior das fraudes e mentiras. Quando a resposta chega, o dano simbólico muitas vezes já foi produzido. O enfrentamento dessa nova guerra informacional exige outra postura das campanhas, dos partidos e das instituições: menos fascínio pela performance sintética e mais compromisso com presença autêntica, coerência e responsabilidade pública. A blindagem real não nasce da fabricação de personagens perfeitos, mas da consistência entre discurso, trajetória e prática. Deepfakes podem imitar rostos, vozes e gestos; não conseguem sustentar, por muito tempo, uma relação real de confiança.
O risco de 2026 é permitir que a política seja reduzida a uma disputa entre códigos ocultos, simuladores de afeto e máquinas de persuasão. Se isso ocorrer, a representatividade será esvaziada por dentro. A democracia depende de mediações institucionais, mas depende também de reconhecimento humano. É preciso reafirmar um humanismo político capaz de recolocar a técnica em seu devido lugar: como ferramenta subordinada à ética, e não como poder autônomo sobre a percepção coletiva.
A inteligência artificial pode reproduzir fala, imagem e linguagem com impressionante eficiência, mas não substitui caráter, responsabilidade nem empatia. Se a política quiser sobreviver ao excesso de artifício, terá de reaprender a valorizar o que nenhuma máquina consegue simular por inteiro: a imperfeição humana como sinal de verdade.
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