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Análise: O que a Suécia tem que o Brasil ainda tenta conquistar?

A distância entre Brasil e Suécia não pode ser medida apenas por indicadores econômicos. Ela aparece nos detalhes do cotidiano

A distância entre Brasil e Suécia não pode ser medida apenas por indicadores econômicos. Ela aparece nos detalhes do cotidiano. Nos últimos dias, estive em Estocolmo a trabalho e inicio a viagem de volta à capital federal com uma sensação inevitável: ainda estamos muito longe de compreender que qualidade de vida não se resume a renda ou consumo. Ela passa, fundamentalmente, pela estabilidade da vida comum.

A capital sueca impressiona pela limpeza das ruas, pelo transporte público eficiente, pelo silêncio e pela sensação permanente de segurança. Caminha-se tranquilamente com o celular na mão, sem o medo constante de um assalto. Não há grades por todos os lados. Não há paranoia coletiva. É possível sentar em uma praça, entrar em um café ou pegar o metrô sem a sensação de alerta contínuo tão comum nas principais cidades brasileiras.

Não se trata de romantizar a Suécia. O país também enfrenta problemas. Há desafios relacionados à imigração, ao aumento da criminalidade em determinadas regiões e ao alto custo de vida. Mas existe algo que os suecos parecem ter entendido há muito tempo: bem-estar depende da previsibilidade da rotina. O cidadão precisa sentir que sua vida funciona. Não por acaso, a Suécia aparece entre os cinco países mais felizes do mundo no mais recente World Happiness Report, levantamento internacional que mede indicadores de qualidade de vida, confiança social e satisfação da população. Nós estamos em 32°.

Em Estocolmo, os horários são cumpridos rigorosamente. Se uma loja fecha às 18h, ela fecha às 18h, assim como o comércio, serviços, restaurantes e pubs. Parece um detalhe banal, mas não é. Existe ali uma cultura de respeito ao tempo livre, ao descanso e à organização da vida pessoal. O trabalho ocupa espaço importante, mas não domina completamente a existência.

Esse debate ganha ainda mais relevância justamente quando o Brasil discute no Congresso o fim da escala 6x1. A discussão é legítima. Milhões de brasileiros vivem submetidos a jornadas exaustivas, especialmente nos setores de comércio e serviços. Em muitos casos, sobra pouco tempo para estudar, conviver com a família ou simplesmente descansar.

Mas a comparação internacional exige cautela. A Suécia construiu seu modelo de proteção social após décadas de investimentos pesados em educação, produtividade, infraestrutura e confiança institucional. Não existe fórmula mágica. A redução da jornada de trabalho funciona melhor em sociedades que conseguiram elevar a eficiência econômica e garantir segurança jurídica.

O Brasil ainda enfrenta obstáculos estruturais profundos. A violência urbana talvez seja o mais cruel deles. Não há qualidade de vida possível em um país onde as pessoas saem de casa diariamente com medo de não voltar. Segurança pública não é apenas um tema policial. É um componente essencial da felicidade coletiva.

Muitas vezes, o debate nacional concentra-se apenas na renda ou no consumo. Claro que dinheiro importa. Mas há dimensões igualmente decisivas. O direito de caminhar na rua sem medo. O transporte que funciona. O serviço público eficiente. O respeito às regras. A confiança nas instituições. A sensação de que o amanhã será previsível.

O Brasil não precisa copiar a Suécia. São realidades históricas, culturais e econômicas completamente diferentes. Mas podemos aprender algumas lições importantes. Países mais desenvolvidos entenderam que prosperidade não significa apenas crescimento do PIB. Significa permitir que as pessoas vivam com dignidade, tranquilidade e tempo para existir além do trabalho.

No fim das contas, talvez seja justamente essa a maior diferença entre os dois países. Enquanto no Brasil grande parte da população vive tentando sobreviver ao cotidiano, na Suécia o cotidiano parece ter sido organizado para permitir que as pessoas simplesmente vivam.

 

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