ARTIGO

Inimigos invisíveis

Surtos de hantavírus e ebola evocam memória da pandemia de covid-19 e fazem acender sinal de alerta sobre emergências sanitárias

PRI-2105-opini.jpg -  (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
PRI-2105-opini.jpg - (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)

Claudio Lottenberg presidente do Conselho Deliberativo da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein e Head do LIDE Saúde 

 

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Temos acompanhado com apreensão a eclosão do novo surto de ebola na República Democrática do Congo e também o surto de hantavírus em um navio de cruzeiro que partiu da Argentina. Há poucos meses, a Índia foi palco de um alerta de disseminação do vírus Nipah, com dois casos de infecção ocorridos entre profissionais de saúde. Essas notícias sinalizam um quadro de vulnerabilidade global diante de doenças infecciosas e, como não poderia deixar de ser, evocam a experiência traumática da pandemia de covid-19, que deixou um saldo global de ao menos 7 milhões de mortes.

A República Democrática do Congo já enfrentou outros surtos de ebola, mas a variante detectada agora, chamada Bundibugyo, é muito menos conhecida e não há vacinas nem tratamentos específicos para os infectados. Um fator agravante, que acelera a disseminação do vírus, é o fato de a região ser palco de conflito, onde atuam mais de 200 grupos armados, e de grandes deslocamentos recentes. Tal cenário, acrescido tanto da falta de testes específicos para detectar a presença dessa cepa como da precariedade dos sistemas sanitários, torna toda a região vulnerável, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar emergência de interesse internacional. 

 Ao mesmo tempo, a imprensa já vinha noticiando a contaminação de passageiros de um navio de cruzeiro por uma variante raríssima de hantavírus, chamada Andes, a única transmissível de uma pessoa a outra pelo ar. Com um saldo de três mortes e de vários casos de infecção, que ainda podem aumentar devido ao longo período de incubação do vírus, aquilo que seria uma bela viagem de Ushuaia, na Argentina, à ilha africana de Cabo Verde tornou-se um pesadelo. Supõe-se que um dos passageiros tenha embarcado já infectado, pois essa variante é típica do local. As investigações estão em curso.

É consenso entre os especialistas que surtos decorrem de uma série de fatores, além de deficiências em sistemas de saúde. Mudanças climáticas e desmatamento, por exemplo, provocam alterações no comportamento de vetores, favorecendo a propagação de vírus. Conflitos armados e deslocamentos populacionais, por sua vez, dificultam a contenção de surtos. Tão importante quanto mapear as causas de epidemias, todavia, é analisar as suas consequências, que podem sinalizar as reais dimensões do problema a enfrentar.

Recentemente, a OMS revisou o número de mortes decorrentes da pandemia de covid-19. Com a inclusão das mortes indiretas relacionadas ao impacto da crise sanitária, a cifra foi corrigida de 7 milhões para 22,1 milhões no período de 2020 a 2023. O novo cálculo leva em consideração a sobrecarga e a interrupção dos sistemas de saúde, que dificultaram o atendimento de outras doenças graves, como câncer, diabetes e problemas cardiovasculares, além de terem acarretado atrasos em tratamentos, vacinação e redução de serviços essenciais. Depois de instalada, uma pandemia provoca um rápido efeito dominó, que, como vimos, além de afetar a coluna vertebral da rede de assistência médica, impõe severos custos econômicos aos países, sobretudo aos menos desenvolvidos.

A covid-19 testou a resiliência dos sistemas de saúde, mostrando seus pontos fortes e escancarando suas vulnerabilidades. As lições que tiramos dessa experiência nos ajudam a equacionar o futuro da saúde global e, em particular, os desafios com os quais o Brasil tem de lidar no enfrentamento de possíveis ameaças. O Sistema Único de Saúde (SUS), graças ao seu modelo universal, que é uma de suas inegáveis virtudes, assegurou atendimento gratuito a milhões de pessoas em todo o país, mesmo em uma situação caótica, e realizou campanhas de vacinação com grande capilaridade. Ao mesmo tempo, porém, vieram à tona suas fragilidades: desigualdades regionais, subfinanciamento, falta de equipamentos e deficit de profissionais. Ainda temos muito por fazer, mas aprendemos bastante.

Um dos aprendizados globais trazidos pela pandemia de covid-19 foi a impossibilidade de separar a saúde humana da saúde animal e do meio ambiente.  Embora a ideia seja tão antiga quanto Hipócrates, foi a emergência sanitária que a evidenciou ao mobilizar o trabalho conjunto de médicos, veterinários, biólogos, ecologistas e gestores públicos. As mudanças climáticas, que alteram as rotas das aves migratórias, o desmatamento, o aumento da produção animal e a maior mobilidade das pessoas, tudo isso favorece a circulação viral. A integração entre profissionais (abordagem One Health) é apoiada pela OMS e por parceiros internacionais para conter surtos.

Por enquanto, nem o ebola, nem o hantavírus, nem o Nipah são ameaças aos brasileiros, mas vírus são inimigos invisíveis — e epidemias costumam surgir sem alarde. O primeiro passo é perceber seus sinais, com programas eficazes de vigilância epidemiológica. De resto, é preciso manter o intercâmbio científico entre centros de pesquisa internacionais, buscar autossuficiência em produção de insumos e de vacinas e corrigir as falhas do sistema de saúde antes que seja tarde.

 

 

 

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Por Opinião
postado em 21/05/2026 06:00
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