Os alertas dos principais centros meteorológicos globais não deixam margem para ceticismo: o final deste ano será marcado pelo retorno de um El Niño de forte intensidade. O fenômeno e suas drásticas consequências, contudo, vêm sendo ignorados. Enquanto cientistas projetam anomalias térmicas severas, o debate público e a agenda das autoridades operam num vácuo de conveniência. Mas a inércia atual flerta com a irresponsabilidade fiscal e humanitária.
Reduzir o El Niño a uma discussão ambiental abstrata e distante do país — afinal, é o aquecimento anormal de águas no Oceano Pacífico, do outro lado do continente — é o primeiro erro estratégico da gestão pública. Num país estruturalmente vulnerável, a oscilação climática se traduz diretamente no bolso e na mesa do cidadão: quebra de safras que pressiona a inflação dos alimentos, estresse hídrico que encarece a energia elétrica, colapso urbano provocado por tempestades ou secas extremas. Como de hábito, o impacto mais severo recai sobre os mais pobres, que não têm margem econômica para absorver os desastres anunciados.
O país não precisa de projeções científicas para imaginar o que está em jogo. Basta lembrar de 2024. As enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul e deixaram Porto Alegre submersa expuseram, em tempo real, o custo do descaso acumulado. A capital gaúcha conviveu com a maior inundação do Guaíba desde 1941, com bairros inteiros debaixo d'água, desabrigados contados aos milhares e uma infraestrutura que simplesmente não estava preparada para o que os meteorologistas já sinalizavam com antecedência.
A memória recente expõe a hipocrisia desse ciclo. A cada grande crise climática, governantes repetem o mesmo roteiro: decretos de calamidade para liberar verbas sem licitação, lamentos sobre as "forças imprevisíveis da natureza", mutirões de reconstrução e promessas de fundos de reconstrução que raramente se materializam. O custo de desobstruir galerias, reforçar encostas e subsidiar o seguro agrícola preventivo é uma fração do preço da reconstrução pós-desastre. Ainda assim, a prevenção continua preterida pelo imediatismo político.
O trauma ainda é recente demais para ser esquecido e urgente demais para ser repetido. Não há espaço para comitês de crise criados de última hora quando a chuva já castiga as cidades ou a estiagem racha o solo. Mitigar riscos exige mobilização logística com meses de antecedência, não declarações de emergência improvisadas. Se os governos esperarem o início das anomalias para agir, o país será novamente refém do improviso. A omissão presente cobrará seu preço em inflação, infraestrutura destruída e vidas perdidas de forma evitável. O tempo de agir está correndo.
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