VISÃO DO CORREIO

Novo alerta para os riscos da inação sanitária

O surto de hantavirose em um cruzeiro de luxo é o mais novo alerta de que uma vigilância integrada e capaz de dar respostas rápidas às crises sanitárias é condição indispensável em tempos de conexão global

Navio cruzou o Atlântico tendo a bordo 150 pessoas de 19 nacionalidades enfrentando um surto de um vírus letal -  (crédito:  AFP)
Navio cruzou o Atlântico tendo a bordo 150 pessoas de 19 nacionalidades enfrentando um surto de um vírus letal - (crédito: AFP)

Com quase 20 mil mortes em razão do coronavírus, um sistema de saúde sobrecarregado e o número de infectados crescendo vertiginosamente, o Brasil, há exatos seis anos, não via outra alternativa para conter a pandemia da covid-19 a não ser restringir radicalmente os contatos sociais. Pressionado pelo acirramento da crise sanitária no país, o Conselho Nacional da Saúde oficializou a recomendação do lockdown em 11 de maio de 2020 — medida que até hoje é razão de críticas e traumas para boa parte da população. Não é de se estranhar, portanto, que os ânimos fiquem exaltados diante da notícia de que um navio acaba de cruzar o Atlântico tendo a bordo 150 pessoas de 19 nacionalidades enfrentando um surto de outro vírus letal.

 A operação de desembarque do MV Hondius foi iniciada no último domingo nas Ilhas Canárias, na Espanha, seguindo os protocolos sanitários. O cruzeiro zarpou de Ushuaia, no extremo sul da Argentina, em 1º de abril, e, ao longo do trajeto, três pessoas morreram infectadas pela única cepa conhecida do hantavírus que se espalha pelo contato entre humanos. Até o momento, há outros quatro casos de infecção confirmados. A OMS descarta a possibilidade de uma nova pandemia. Mas o episódio é o mais novo alerta de que uma vigilância integrada e capaz de dar respostas rápidas às crises sanitárias é condição indispensável em tempos de conexão global e relação desarmoniosa com o meio ambiente. 

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Detectada na embarcação, a chamada cepa andina, mais incidente na América do Sul, é transmitida por roedores silvestres — diferentemente dos casos de hantavirose registrados nos centros urbanos. São atividades predatórias como o desmatamento e a expansão agrícola desenfreada que levam ao contato de humanos com os animais infectados. Distinguir os casos é importante para evitar pânico, barrar a avalanche de fake news e, sobretudo, favorecer o manejo adequado das infecções e das medidas preventivas. 

Nesse sentido, a OMS enfatizou a importância do monitoramento de todos os passageiros e tripulantes durante 42 dias após o desembarque e alertou  que a decisão dos EUA de relativizar a quarentena dos seus cidadãos "envolve riscos". Para além do imbróglio envolvendo o cruzeiro de luxo, a agência das Nações Unidas tem lembrado que a crise climática sem precedentes tende a inaugurar uma nova era de pandemias e surtos de males conhecidos e ainda ocultos. 

Maio também completa um ano em que a OMS aprovou o Acordo sobre Pandemias, focado justamente em medidas mais eficazes para prevenir e responder às emergências sanitárias globais. À época, Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da agência, afirmou que o feito histórico era prova de que "as nações ainda podem trabalhar juntas para encontrar um terreno comum e uma resposta compartilhada às ameaças comuns". Em termos práticos, porém, há ainda pontos espinhosos a serem resolvidos, como o compartilhamento de dados e amostras de vírus e bactérias e a transferência de tecnologias para vacinas. 

Para sair do papel, o acordo precisa ser ratificado por ao menos 60 países. Estima-se que o processo de ajustes internos dos signatários leve ao menos dois anos — tempo que durou a fase mais crítica da pandemia da covid-19. E, assim, o cronograma dos homens e o do vírus seguem distantes. Ainda que com proporções distintas, o roteiro do coronavírus e o do MV Hondius deixam claro que o preço a se pagar pela inação sanitária é alto: pode custar dezena de milhões de vidas.

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Por Opinião
postado em 12/05/2026 06:00 / atualizado em 12/05/2026 06:29
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