ARTIGO

Num pré-divórcio, quem tira a aliança primeiro?

A pouco mais de 100 dias do primeiro turno, balão de ensaio inflado pelo ex-governador provocou ação firme de Celina e uma reação mais moderada de Ibaneis, que acenou recuo estratégico

Política é mesmo uma coisa imprevisível, a ponto de dedicar ao eleitorado um anúncio de pré-divórcio. Soou no mínimo estranha a declaração do ex-governador Ibaneis Rocha sobre um possível rompimento com Celina Leão, atual governadora e candidata ao governo do DF nas próximas eleições. Estratégia ou não, a cena também é simbólica por outros motivos. Os quatro homens enfileirados lamentando suas insatisfações diante do voo solo de uma mulher também diz muito sobre a política.

A pouco mais de 100 dias do primeiro turno, o balão de ensaio (no jargão jornalístico, significa jogar uma notícia ao vento para ver de que lado sopra mais forte) inflado pelo ex-governador provocou uma ação firme de Celina e uma reação mais moderada de Ibaneis, que acenou um recuo estratégico. Para a população, ficou o obscuro argumento de um necessário "realinhamento de posições", seja lá o que for isso. Na leitura mais óbvia, Ibaneis e seu grupo não querem pagar sozinhos os créditos podres do Master-BRB.

É óbvia a tentativa de Celina de se descolar do governo do qual fez parte, afinal, a crise do Master-BRB será o alimento mais servido pela oposição durante a campanha. A indigestão do eleitorado é certa. Houve até quem apostasse que tudo não passou de um jogo de cena para favorecer a blindagem de Celina. Será? É cedo para ver. Por outro lado, nos bastidores, comenta-se que o relacionamento Ibaneis-Celina sempre foi tóxico. O fato é que, no pré-divórcio de Ibaneis, abençoado pelos três padrinhos, quem tirou a aliança primeiro foi Celina, quando declarou sua não submissão.

Existe, no campo simbólico das candidaturas femininas, uma nova postura que os homens ainda estranham e resistem, vide o caso Michelle Bolsonaro, considerada pelo próprio marido frágil para suportar o peso de uma campanha à Presidência, depois dos áudios de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro para Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse. Em todos os campos políticos, no entanto, muitas não se diminuem mais diante de ameaças. E esse, sim, é um rearranjo de forças subestimado. Celina não se encolheu e, se quiser ser eleita, precisará, de fato, dissociar sua imagem da lambança desse escândalo. E de outros, como fez quando governou internarinamente o DF no pós-8 de Janeiro. Resta saber se vai conseguir.

Ainda há muito a definir no jogo eleitoral, por isso são esperadas muitas idas e vindas até a definição, de fato, das candidaturas. O tempo no horário eleitoral e a divisão do bolo de dinheiro do Fundo Eleitoral são argumentos sólidos para zerar desentendimentos ou aprofundá-los de vez. E é isso que pode ter alimentado a ameaça do MDB. Mas precisaria de vídeo para deixar isso claro? Ou aguardam consentimento da opinião pública para selar o fim do compromisso?

A participação de José Roberto Arruda ou não no cenário eleitoral local, a ser definido pelo julgamento em curso no Supremo Tribunal Federal, também vai pesar nas decisões. Cientistas políticos ouvidos pelo Correio reforçam a tese de uma divisão dos votos da direita caso se confirme o rompimento entre Celina e Ibaneis, o que pode favorecer a esquerda. Uma campanha tem um tamanho com Arruda na disputa e outro diferente com ele fora, até a Loba do Buriti sabe disso.

Precisamos lembrar que o Distrito Federal é mais previsível nas eleições presidenciais e muito menos no voto para o governo. Não foi só uma vez que a população escolheu um outsider da política, que começou a campanha com ínfimos pontos percentuais e chegou vitorioso ao final. Aconteceu com Cristovam Buarque; aconteceu com o próprio Ibaneis. Já tivemos viradas importantes no tempo de prorrogação. Ou seja, tudo ainda está indefinido.

 

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