ARTIGO

A força da verdade

A realidade costuma prevalecer sobre as fantasias dogmáticas, sejam de caráter político, ideológico ou simples modismos de última hora

André Gustavo Stumpf jornalista

Sou remanescente dos melhores momentos do jornalismo no Brasil, época em que os repórteres dos jornais diários não eram obrigados a competir com as notícias 24 horas da tevê a cabo. Os jornalistas tinham a possibilidade de viajar para qualquer lugar em que houvesse chance de uma boa reportagem. No meu tempo de Veja, por exemplo, anos setenta, fui de avião pequeno, teco-teco alugado, ao encontro dos indígenas gigantes nas margens do Rio Peixoto de Azevedo, na divisa dos estados do Amazonas e Mato Grosso. 

Hoje no local existe uma cidade. Na época, era selva amazônica. Dormi no mato, com os indígenas. Tive a rara oportunidade de presenciar o primeiro contato de selvagens com os brancos, representados por Cláudio Villas Boas, personagem de outro planeta, filósofo, tranquilo e profundo conhecedor do Brasil. A reportagem virou matéria de capa da Veja e ocupou mais de seis páginas da revista.

O jornalismo atual foi invadido pelas mesas redondas de especialistas e jornalistas que começam a responder a qualquer pergunta com as palavras mais mortais no mundo da imprensa: "eu acho". O país está saturado por notícias falsas, informações exageradas, incompletas, afirmações sem fundamento que aparecem nos noticiários de televisão e são corrigidos nas edições seguintes. Não é um fenômeno brasileiro, é universal. Estamos todos submetidos à pressa, ao trabalho de apuração malfeito, à preguiça que invadiu as redações, além de definições das ideologias e dos modismos em vigor. No caso de Brasília, as entrevistas pessoais foram substituídas pela conversa ao telefone celular. Tudo é improviso, submetido aos rigores do espaço disponível e dos humores do jornalismo ao vivo. 

A eleição presidencial brasileira é notável nesse sentido. Só há candidatos de direita, contra um senhor de mais de 80 anos que, teoricamente, representa a esquerda. A campanha se sustenta, pela falta de ideias, no desfilar de escândalos. O banqueiro que corrompeu boa parte dos poderosos brasileiros infiltrou-se em todos os lugares. Tem até uma parte da sociedade que comanda um clube de futebol em Minas Gerais. Daqui a pouco, vão descobrir esse pedaço de escândalo. 

De escândalo em escândalo, o debate eleitoral não chega a lugar nenhum. Aliás, nenhum dos candidatos apresentou alguma proposta parecida com programa de governo. Ninguém projeta o futuro. A única preocupação é garantir vantagens pessoais para seu grupo. Nem o atual presidente conseguiu apresentar seu projeto de país para os próximos quatro anos. 

O extremista procura se colocar sob a asa de Donald Trump, o que é lamentável porque a eleição vai ocorrer no Brasil, não nos Estados Unidos. O governo norte-americano agora administra o futuro da Venezuela. Deve servir de horizonte para o filho de Jair, se for eleito. Mas ninguém se lembrou de fazer as perguntas certas ao candidato. Mesmo porque é de conhecimento público que ele não tem as respostas.

É lamentável chegar a esse nível de descompromisso com a notícia. Tempos atrás, anos sessenta, neste mesmo Correio Braziliense, era um foca iniciante que fazia o turno da noite. Chegava no jornal às 18 horas e saia depois da meia noite, quando a primeira página era concluída. Meu chefe era o Alfredo Obliziner, editor de saudosa memória, ótimo jornalista e grande companheiro. Quando irritado, ficava vermelho de raiva. Parecia que ia explodir. 

Minha função era auxiliar no fechamento da primeira página. Fazia títulos, reescrevia matérias e produzia legendas. Numa determinada noite, encontrei Alfredo a ponto de estourar. Havia um militar na redação. Não me lembro da patente. Estava uniformizado. Entregava o material ao Alfredo, e ele passava ao militar. Depois o texto voltava para minha apreciação todo rabiscado. Censura.

O militar dizia o que podia e que não podia ser publicado. Censura de corpo presente. O devaneio da ditadura. Ninguém consegue impedir a narrativa da história, nem o correr dos fatos. Mas os censores tinham a pretensão de reescrever a realidade. O espaço é pequeno para assunto tão controverso. A atividade dos censores resultou em muita confusão. Uma edição inteira do Correio chegou a ser empastelada. O pessoal ficou preso na redação toda a noite. 

Mas, um dia o vento muda. E mudou. Os militares voltaram para os quartéis, e o Brasil se reencontrou com a democracia. A realidade costuma prevalecer sobre as fantasias dogmáticas, sejam de caráter político, ideológico ou simples modismos de última hora. As narrativas perdem a validade diante das verdades universais. Não há alternativa para a realidade. Estive em 1980 na União Soviética. Na época, era o seu esplendor. Fui de Moscou a Tashkent, na Ásia. Comunismo por todos os lados. Relatei minha experiência numa série de oito reportagens que foi publicada neste Correio. Um dia o vento virou e aquilo tudo foi demolido pela força dos fatos. A verdade pode demorar a chegar, mas prevalece.

 

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