ARTIGO

Brasil precisa superar os lixões e o debate ideológico sobre resíduos

O desafio não está em escolher entre reciclagem, compostagem, biodigestão ou recuperação energética. É integrar soluções de forma inteligente e integrada, alinhada à Política Nacional de Resíduos Sólidos e às melhores práticas internacionais

Yuri Schmitke. Presidente-executivo da Associação Brasileira de Energia de Resíduos (Abren) -  (crédito: Divulgação)
Yuri Schmitke. Presidente-executivo da Associação Brasileira de Energia de Resíduos (Abren) - (crédito: Divulgação)

*Por Yuri Schmitke, presidente-executivo da Associação Brasileira de Energia de Resíduos (Abren)

O debate sobre gestão de resíduos sólidos urbanos no Brasil precisa avançar para além de simplificações ideológicas e falsas oposições entre tecnologias. O artigo O lixo nosso de cada dia: futuro dos resíduos não está nas chaminés, publicado recentemente pelo Correio Braziliense, reacende uma discussão importante, mas parte de uma visão incompleta ao tratar a recuperação energética de resíduos, tecnologia que transforma rejeitos não recicláveis em energia elétrica, como antagonista da reciclagem e da economia circular.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

É natural que existam dúvidas sobre essa tecnologia. Afinal, o Brasil ainda não possui usinas desse tipo em operação. Enquanto o mundo conta com cerca de 3 mil usinas de recuperação energética (UREs), a URE Barueri, em São Paulo, prevista para entrar em operação em janeiro de 2027, será a primeira planta brasileira.

Em um país onde mais de 40% dos resíduos ainda têm destinação inadequada e mais de 2 mil lixões seguem ativos, o desafio não está em escolher entre reciclagem, compostagem, biodigestão ou recuperação energética. O verdadeiro desafio é integrar soluções de forma inteligente e integrada, alinhada à Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e às melhores práticas internacionais.

A recuperação energética, também conhecida como Waste-to-Energy (WtE), não substitui a reciclagem. Trata-se de uma solução complementar para rejeitos não recicláveis, após esgotadas as possibilidades de reaproveitamento material e tratamento orgânico. Excluí-la do debate significa condenar milhões de toneladas de resíduos a aterros sanitários e, muitas vezes, para lixões.

Os exemplos internacionais demonstram isso com clareza. Alemanha, Dinamarca, Bélgica, Finlândia, Suécia, Suíça, Áustria e Países Baixos combinam altas taxas de reciclagem com ampla infraestrutura de recuperação energética e praticamente eliminaram o envio de resíduos para aterros sanitários. A Alemanha, por exemplo, possui cerca de 100 usinas WtE em operação, taxa de reciclagem e compostagem próxima de 69%, 31% para recuperação energética, e destina menos de 1% dos resíduos para aterros, segundo dados do Banco Mundial e da União Europeia.

As UREs também trazem ganhos para saúde pública e meio ambiente. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cada R$ 1 investido em saneamento gera economia de R$ 4 em despesas de saúde.

Outro ponto importante diz respeito às emissões atmosféricas. Parte das críticas ao WtE ainda está associada a antigos incineradores, ignorando a evolução tecnológica do setor. As modernas usinas operam sob rigorosas normas ambientais, especialmente na União Europeia e no Japão, com monitoramento on-line de todos os componentes e sistemas de trava na operação caso não sejam respeitados. 

Levantamento da Confederation of European Waste-to-Energy Plants (CEWEP) mostra que as usinas européias respondem por apenas 0,2% das emissões de dioxinas e furanos no continente, enquanto veículos automotores representam cerca de 35%.

Também merece correção a ideia de que aterros sanitários seriam suficientes como solução estrutural. Embora fundamentais para erradicar lixões, eles continuam sendo fontes relevantes de emissão de metano. Estudos compilados pelo Waste to Energy Research and Technology Council (WtERT), pela European Confederation of Waste-to-Energy Plants (CEWEP) e pela European Suppliers of Waste to Energy Technology (ESWET) apontam que as emissões reais de metano em aterros podem ser até 2,7 vezes maiores do que aquelas registradas em inventários oficiais, sendo que as usinas WtE evitam até oito vezes as emissões quando comparada a outras soluções.

A solução climática mais eficaz não está apenas em capturar o metano após sua formação, mas em evitar que os resíduos sejam aterrados. É justamente nesse ponto que a recuperação energética desempenha papel estratégico, ao reduzir estruturalmente o envio de rejeitos para aterros sanitários.

No Brasil, a recuperação energética já integra a política pública nacional. O Plano Nacional de Resíduos Sólidos (Planares), coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, estabelece meta de aproximadamente 994MW de capacidade instalada em usinas de recuperação energética até 2040, porém ainda estamos muito longe dessa meta.

Defender reciclagem, compostagem, biodigestão e inclusão de catadores é correto e necessário. A Associação Brasileira de Energia de Resíduos (Abren) apoia integralmente essas agendas. Mas afirmar que apenas essas soluções bastam para enfrentar o desafio dos resíduos urbanos significa ignorar evidências científicas, experiências internacionais e a própria realidade brasileira.

O futuro da gestão de resíduos não está nos lixões, nem em falsas escolhas entre reciclagem e recuperação energética. Está na integração entre tecnologias, no compromisso com a ciência e na construção de um modelo moderno de economia circular capaz de reduzir emissões, proteger a saúde pública e evitar que milhões de toneladas de resíduos continuem sendo enterradas diariamente no país.

 

  • Google Discover Icon
Por Opinião
postado em 01/06/2026 00:01 / atualizado em 01/06/2026 08:48
x