Opinião

A marca acima da entrega

Cada vaga ocupada por um nome escolhido por seu valor comercial é uma vaga negada a alguém mais preparado para aquela função específica. O mercado não entendeu que atenção e competência não são sinônimos

Neymar Jr. -  (crédito: Reprodução internet)
Neymar Jr. - (crédito: Reprodução internet)

Existe um fenômeno evidente no entretenimento, no esporte e na comunicação: a insistência em nomes que já não correspondem às exigências da função, mas continuam sendo escolhidos porque carregam uma marca comercial poderosa demais para ser ignorada. O problema surge quando a força do nome se sobrepõe à necessidade técnica do cargo, o marketing vence a meritocracia e a marca se torna mais importante que a entrega.

O exemplo mais emblemático no Brasil, talvez, seja Neymar. Ninguém discute sua importância para a história recente, mas o futebol é um esporte de momento, desempenho e condição física. A proximidade da Copa do Mundo reacende o debate sobre sua presença na Seleção Brasileira. A pergunta que deveria nortear a discussão é: Neymar oferece hoje o que a Seleção precisa para conquistar o hexa?

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A resposta precisa ser técnica, e justamente aí mora o conflito. O peso comercial do seu nome muitas vezes parece tornar impossível uma avaliação fria sobre sua utilidade esportiva real. Enquanto isso, jogadores em melhor fase disputam espaço com alguém cuja presença é tratada como inevitável antes mesmo de qualquer análise de rendimento.

A lógica é semelhante à observada na dramaturgia. Em Quem ama cuida, a escalação de Tatá Werneck para interpretar uma stalker obsessiva expõe uma questão que a televisão evita enfrentar. Ela construiu uma carreira admirável no humor, mas carisma e popularidade não substituem adequação. O papel exige densidade dramática e camadas psicológicas complexas. No entanto, a atriz carrega uma identidade humorística tão consolidada que o espectador tem dificuldade para enxergar a personagem além da figura pública, resultando em uma interpretação atravessada por maneirismos da comédia. Isso não significa que atores de humor sejam incapazes de fazer drama, mas o problema é quando a escolha parte menos da personagem e mais da necessidade de manter uma marca valiosa em evidência.

Essas decisões não afetam apenas o resultado final de obras ou equipes; elas fecham portas. Cada vaga ocupada por um nome escolhido por seu valor comercial é uma vaga negada a alguém mais preparado para aquela função específica.

O fenômeno se repete na crescente presença de influenciadores na dramaturgia. Em vez de critérios artísticos, muitos chegam às novelas impulsionados pelo alcance nas redes sociais. A situação alcança níveis ainda mais curiosos quando vemos influenciadores deslocados para áreas diferentes de suas especialidades. A escolha de Virgínia para a cobertura da Copa do Mundo ilustra isso. Não importa a experiência jornalística ou o conhecimento tático; o que importa é o potencial de engajamento e a repercussão digital.

O mercado não entendeu que atenção e competência não são sinônimos. A consequência é um sistema que gradualmente substitui especialistas por celebridades, e qualificação por relevância comercial. A audiência pode até vir no primeiro momento, mas, a longo prazo, a qualidade sofre: o futebol perde competitividade, a dramaturgia perde credibilidade e o jornalismo perde autoridade. Marcas são importantes, mas quando sua preservação se torna mais importante do que a execução da função, o resultado costuma ser medíocre. Escolher quem melhor desempenha a tarefa no momento deveria ser o foco. Nem sempre o nome mais famoso é o mais adequado.

 

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postado em 01/06/2026 06:00
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