ARTIGO

Mundo aliviado

Em junho, no mês do Bumba meu Boi, vamos todos dizer: Faça a alegria, os fogos e as fogueiras das festas; não faça a guerra!

. -  (crédito: Maurenilson/CB)
. - (crédito: Maurenilson/CB)

José Sarneyex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras 

Há sempre esperança de renascimento da alegria. Depois das tristezas de todo dia, nos levando muitas noites à lamentação e ao choro, chega o mês de junho com a alegria do nosso povo nos folguedos populares do Bumba meu Boi — a nossa ópera popular que é encenada durante meses, nas comemorações do nosso São João —, trazendo alívio à nossa alma. São Luís é uma terra que bem merece ser chamada de Ilha do Amor. Melhor seria se fosse do Amor Demais. Falo do nosso amor, da sua história e da sua gente, seu espírito,  sua beleza.

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Para parodiar Hemingway, que dizia que "Paris é uma festa", eu diria que "São Luís é um amor". É, para mim, uma terra de lembranças que estão associadas à minha mocidade.

Mas naquele tempo a cidade não era a Ilha do Amor, era a Ilha Rebelde, rebelde pelas heranças do passado que a fez resistir a todas as ocupações, dos franceses, dos holandeses e dos portugueses, e a todos os governos, para ser uma cidade sem amarras, bem brasileira, na miscigenação das raças, em que negras magras e elegantes tiveram forte influência.

Mas quero falar só da alegria, que chegou em maio, quando já se começa a esquentar os tambores e ensaiar as brincadeiras que fazem do nosso São João a festa mais popular da região.

Não se sabe bem como começou, de onde veio, mas sabe-se como foi absorvendo o momento em cada ano e incorporando novos estilos e outras brincadeiras — como são chamadas as diversas apresentações.

Em junho, aparecem os ventos gerais, em que os dias vão se transformando de chuvosos para de Sol aberto, e as noites são só os sotaques dos bois, do Bumba meu Boi, misturando os caboclos de paus de fita, os índios de cabeças de pena, as "catirinas", os "pais-franciscos" e, por fim, os "bois", de couro, de miçangas, com figuras religiosas bordadas por mãos de fada, como aquela "Neusa", cantada nas toadas de matraca e de pandeiros gigantes: "Foi Neusa quem bordou". E os cantadores, heróis do nosso povo, que aqui deixaram até provérbios como este: "Como o Boi de Tolentino, só fama", quando a decadência chegava, ou com a velhice ou com a perda do prestígio e beleza.

E ainda o Tambor de Crioula, das saias rodadas e das "pungas sensuais". Tudo isso misturado com os fogos, os busca-pés, as danças, o cucuriá e o trejeito das mulatas.

Na passagem para o século 8, chegaram aqui os açorianos. Que gente era essa com essa vocação inevitável de vaqueiro? Eram os migrantes da Ilha dos Açores, essa gente ainda hoje devota ao gado, ao boi, que enfeitam quando vai morrer. Para onde foram levaram sua cultura, que no Brasil deu várias formas de festa, inclusive o nosso Bumba meu Boi, o Boi de Mamão de Santa Catarina e o Boi Bumbá do Piauí. E o boi foi avançando e criando uma cultura muito particular. 

Agora, o Bumba meu Boi do Maranhão foi reconhecido pela Unesco (o maior órgão de cultura das Nações Unidas), em dezembro de 2019, como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. A entrega oficial ocorreu em agosto de 2025. Assim, o Maranhão, com justa autoridade, reivindica ser a Pátria Brasileira do Bumba meu Boi.

A verdade é que, em nenhum outro lugar, ele se apresenta com uma riqueza musical — cancioneiros, sotaques, fantasias, instrumentos, variedades de apresentação — como a de nosso estado. Até mesmo os cordões que existem em outras partes do nosso país foram levados por maranhenses, conhecedores do auto e do ritmo desse folguedo popular.

Nada mais bonito, nada mais autêntico, tradicional e puro.

No São João do Maranhão está a beleza dos folguedos populares dos nossos antepassados, nessa magia do Bumba meu Boi trazendo conforto à nossa alma.

Entre fogos e festas, brincamos todos. Lembro ainda hoje as noites em que todos nós, Tribuzzi, Bogéa, Evandro, Luís Carlos, Sílvio, Cadmo, Floriano, Figueiredo e eu, passávamos a noite acompanhando, com matracas na mão, o Boi da Maioba.

A alegria das festas de São João devem substituir a tristeza da guerra, como no tempo da Guerra do Canal de Suez, no Egito, em 1956, quando nos bailes de carnaval se colocavam um grande cartaz: "Em Suez, se briga; aqui se brinca".

Em junho, no mês do Bumba meu Boi, vamos todos dizer: 

Faça a alegria, os fogos e as fogueiras das festas; não faça a guerra!

 

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Por Opinião
postado em 19/06/2026 06:00
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