visão do Correio

A Copa é o espelho do mundo

A Copa do Mundo sempre foi mais do que futebol. Desde 1930, funciona como espelho do tempo — e, em 2026, essa condição é mais evidente

Antes de a bola rolar, todos os jogadores, titulares e reservas, formarão um círculo no centro do gramado na execução dos hinos nacionais em uma das inovações da Fifa. Por alguns minutos, não haverá ataque nem defesa, adversários nem fronteiras. Apenas um planeta reunido em torno da bola. A Copa do Mundo sempre foi mais do que futebol. Desde 1930, funciona como espelho do tempo — e, em 2026, essa condição é mais evidente. Pela primeira vez, 48 seleções disputarão o título em um formato expandido, distribuído em três sedes: Estados Unidos, México e Canadá. Serão 1.248 jogadores, 104 partidas em 39 dias, em uma engrenagem logística e tecnológica sem precedentes.

Mas o futebol chega a esse cenário em um mundo tensionado. A Rússia segue sob sanção em razão da guerra contra a Ucrânia. O Irã entra em campo em meio a uma relação de hostilidade com os EUA, principal sede do torneio, cujo presidente, Donald Trump, recebeu da Fifa o Prêmio da Paz no sorteio dos grupos. Os anfitriões simbolizam as contradições: falam em integração continental enquanto enfrentam debates intensos sobre imigração na fronteira mexicano-americana e insinuações políticas sobre uma eventual anexação do Canadá, além das investidas expansionistas pela América do Sul e Caribe.

Se a política revela fraturas, o futebol expõe mudanças estruturais. A expansão do Mundial redesenha o mapa do evento. Nunca houve presença tão ampla dos países de maioria muçulmana. De Marrocos a Uzbequistão, de Senegal a Jordânia, de Argélia a Iraque, o torneio representa com mais fidelidade a diversidade cultural e religiosa. Nessa nova ordem, o contraste chama atenção: enquanto essa ampliação se consolida, Israel, por exemplo, segue deslocado: disputa as Eliminatórias pela Europa. Ausente de uma Copa desde 1970.

Novas histórias emergem nessa transformação. Ex-Zaire, a República Democrática do Congo volta à Copa após 52 anos em meio à crise causada pelo surto de ebola e desembarca em países que também enfrentam problemas sanitários, sobretudo em razão do aumento de casos de sarampo. Cabo Verde e Curaçao simbolizam a abertura de horizontes antes improváveis. O Mundial vira espaço de inclusão e de reconstrução no cenário global, caso do Haiti.

Nem mesmo as grandes potências passam imunes às mudanças. Tetracampeã, a Itália está fora da Copa pela terceira vez consecutiva, em uma decadência no Mundial sem precedentes. O pentacampeão Brasil, único país presente em todas as edições, e maior campeão do torneio, chega atravessado por divisões internas que ultrapassam o futebol. A polarização política entre bolsonaristas e lulistas impacta a Seleção. Neymar tornou-se, ao mesmo tempo, símbolo, debate e divergência em um país que raramente separa campo e contexto.

Há, ainda, um elemento inevitável de passagem do bastão. A Copa de 2026 marca as despedidas de Lionel Messi, Cristiano Ronaldo, Luka Modric, Manuel Neuer e Neymar. Encerramento simbólico de um período que viralizou ainda mais o futebol na era das redes sociais e marca a transição para a inteligência artificial.

Por isso, a Copa de 2026 vai além da disputa pelo título. Ela reúne conflitos e encontros, fronteiras e conexões, tecnologia e tradição, despedidas e começos. Expõe um mundo simultaneamente mais conectado e mais fragmentado.

O círculo dos hinos nacionais no novo protocolo da Fifa dura apenas alguns minutos. Mas, talvez, nenhuma imagem traduza melhor a Copa do Mundo de 2026: um planeta cheio de diferenças, conflitos e interesses divergentes que, por algumas semanas, aceita ocupar o mesmo espaço. E compartilhar o mesmo olhar.

 

 

 

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