
Eu carrego comigo uma máxima: não se mira o futuro sem olhar o passado. Não se trata de nostalgia nem de viver preso ao que já passou. Nem mesmo é de saudade que falo. É da consciência de que existe um caminho e dificilmente estaremos nele do início ao fim ou imersos da mesma maneira em todo percurso. Fiquei pensando nisso depois de assistir à série Brasil 70 — A saga do Tri, acerto da Netflix, com os excelentes Rodrigo Santoro, no papel de João Saldanha, e Bruno Mazzeo como Zagallo.
Foi como puxar um fio do novelo da infância. Lembrar das narrações pelo rádio e da transmissão em preto e branco na TV da casa da vizinha da vila que morávamos lá na Fosforita, em Peixinhos, bairro de Olinda. Entender como a ditadura pressionava dentro do campo. Viver a tensão de personagens complexos e que ainda fazem parte do imaginário coletivo brasileiro, como Pelé, Zagallo e o próprio João Saldanha, demitido às vésperas da Copa após uma declaração que repercutiu mal com os militares.
Ainda que tenham vários momentos de licença poética e recursos de dramaturgia, a série tem forte apelo na realidade, com uma cenografia de época bastante fiel e reconstituição de grandes momentos das personagens protagonistas daquele período, entre eles muitos lances dos jogos. Aproveitei o feriado de Corpus Christi para maratonar a série com minha filha Helena e minha irmã Rosa. Mais do que rever uma das maiores seleções da história, foi uma viagem afetiva entre gerações. Em 1970, Rosa tinha 17 anos e torcia por Clodoaldo, o elegante camisa 5 daquele time inesquecível. Histórias que ultrapassam o futebol e permanecem na memória das famílias.
Estamos muito mais perto do futuro agora do que estamos do passado, a apenas seis dias da estreia da Seleção Brasileira na maior Copa do Mundo de todos os tempos. Estamos com mais esperança agora do que com saudades daquela Copa de 1970, que nos rendeu o tricampeonato e da qual muitos guardam lembranças. Mas cada estrela de um campeonato mundial soma mais um pedaço à nossa história com o futebol. E é isso que alimenta essa paixão do brasileiro pela bola, passada de pais para filhos, entre gerações.
A Revista do Correio, em sua matéria de capa, hoje, traz personagens que presenciaram todas as vitórias do Brasil em Copas do Mundo, como o ex-presidente José Sarney, o empresário Celso Kaufman, o jornalista Silvestre Gorgulho e outros que ainda guardam detalhes na memória. A reportagem assinada por Giovana Kunz e Giovanna Rodrigues relembra o trágico Maracanazo, em 1950, quando o Brasil perdeu para o Uruguai, e o sentimento que cresceu a partir daí — uma tristeza na mesma proporção que a alegria irrompida em 1958, o primeiro título. Desde então, somos essa paixão, que nos define e nos faz vibrar no coletivo, muito mais do que em qualquer outra causa.
Nas últimas cinco Copas do Mundo, o Brasil se retirou da competição — uma vez numa semifinal e as demais nas quartas de final, incluindo a traumática goleada da Alemanha em solo brasileiro. Temos aquele grito preso na garganta há 20 anos. É um ano complexo, sem ressaca de pandemia, mas com uma campanha eleitoral em curso, em que o até o Pix, um símbolo da eficiência nacional, é vítima de artifícios de negacionistas para ludibriar a verdade. Que Zelle que nada, minha gente! Ariano Suassuna já dizia: eu não troco o meu oxente pelo ok de ninguém. Há coisas que são inegociáveis.
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