OPINIÃO

Como ser um homem

Não é de hoje que o conceito de virilidade ocupa um espaço quase mitológico no imaginário social, mas a masculindade não tem receita ou formato

"Tenho um pouco de pena dos meninos que estão se tornando homens agora. Têm de sempre serem os machões." Recentemente, esse comentário de um colega de Redação me fez pensar. Por ironia do destino, ou talvez como um sinal para produzir este texto, naquela mesma noite terminava a série Pela metade, que aborda exatamente os ângulos mais sombrios do que significa, afinal, "ser homem". Refletir sobre a masculinidade no mundo moderno passa longe de ser um exercício banal; na verdade, está se tornando algo imprescindível.

Não é de hoje que o conceito de virilidade ocupa um espaço quase mitológico no imaginário social. Desde a década de 1930, com as primeiras tirinhas do Super-Homem, a mídia ajudou a impulsionar a ideia de que a masculinidade deveria estar obrigatoriamente atrelada à força física e, não raro, à violência.

Essa ideia foi se transformando e ganhando novos contornos. Como querosene jogado no fogo de uma estrutura que já era trôpega, as redes sociais aceleraram o processo de degradação desse conceito. Plataformas digitais transformaram a masculinidade em um retalho de preconceitos. O avanço do movimento red pill colocou a figura masculina em rota de colisão e superioridade com a feminina, condensou o valor do indivíduo ao sucesso financeiro e resgatou homofobias e intolerâncias que pareciam enterradas.

"Ser homem" atualmente superou as discussões de identidade e migrou para o plano do puro status social. Vídeos de pais visivelmente decepcionados em chás de revelação ao verem a fumaça rosa já viraram motivo de comédia apelativa. Da mesma forma, tiktoks de mulheres em baladas LGBTs reclamando que "não existem mais homens" funcionam como um alívio cômico em devaneio. 

Em Pela metade, o público acompanhou a história de Niall (Jamie Bell), um jovem introvertido que se vê obrigado a conviver com o estereótipo mais clássico do "macho alfa". Seu contraponto é Ruben (Richard Gadd), um sujeito violento, obstinado por conquistas amorosas e que desconhece limites éticos. Mesmo sendo uma figura claramente nociva, Ruben acaba se tornando a bússola moral de Niall, que acredita ter encontrado o mentor ideal de como "ser um homem". 

É evidente que discussões profundas sobre gênero e comportamento não serão totalmente superadas nas páginas de opinião dos jornais, mas este espaço serve como um ponto de partida urgente. Os dados reais mostram que a masculinidade tóxica cobra um preço altíssimo de sangue e dor na estrutura do nosso país.

A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, promovida pelo Instituto Pesquisa DataSenado em 2025, apontou que 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar. O cenário de intolerância de gênero também se estende à comunidade da diversidade: o Brasil segue liderando rankings mundiais de mortes violentas de pessoas LGBT .

Às vezes, diante de estatísticas tão alarmantes e cruéis, vale o exercício de refletir: quantos desses crimes cotidianos não foram motivados, no fundo, pelo desespero de alguém tentando provar ao mundo "como ser um homem"?

 

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