ARTIGO

As lições do 'terroraço'

Com a ilusão de que isso reduzirá a violência dos batedores de carteira das esquinas e dos corredores do Estado, o povo aceita a vergonha de sermos um país associado ao terrorismo e, consequentemente, perdermos parte de nossa soberania

Cristovam Buarqueprofessor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

Além da vergonha nacional, a inclusão do Brasil entre os países que abrigam grupos terroristas nos impõe algumas lições.A primeira é reconhecer que fracassamos na luta contra o crime. Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV) e outras facções são apenas a face mais ostensiva da violência que caracteriza a sociedade brasileira: desigualdade, pobreza, analfabetismo, batedores de carteira nas esquinas, assaltantes nos corredores do Estado por meio de supersalários, penduricalhos, desperdícios, privilégios e ostentação.

A segunda lição é que, durante décadas, deixamos de fazer o dever de casa: construir uma sociedade harmônica, sobretudo por meio de uma educação básica de qualidade para todos. Há 60 anos, Darcy Ribeiro nos alertava que ou fazíamos escolas ou teríamos de fazer prisões. Preferimos outras prioridades e não implantamos um sistema nacional de educação pública com máxima qualidade e absoluta equidade.

A terceira lição é que, com a ilusão de que isso reduzirá a violência dos batedores de carteira das esquinas e dos corredores do Estado, o povo aceita a vergonha de sermos um país associado ao terrorismo e, consequentemente, perdermos parte de nossa soberania. Duzentos anos depois de conquistarmos a independência, corremos o risco de aceitar a perda de soberania em troca da promessa de paz nas ruas.

A quarta lição nos ensina que os defensores da submissão não são apenas um ou outro político, mas também seus partidos e correligionários. A disputa eleitoral está concentrando a crítica pelo servilismo em apenas um candidato à Presidência, mas deve alcançar todos os políticos antipatriotas e seus partidos. Dois séculos depois de declararmos nossa independência de Portugal, poderemos ter uma eleição entre partidos que defendem a submissão do Brasil à vontade de um governo estrangeiro e partidos que defendem a cooperação internacional com preservação da soberania nacional. Além dos candidatos à Presidência da República, há dezenas de candidatos aos governos estaduais, ao Senado, à Câmara dos Deputados e às Assembleias Legislativas que adotam posições contrárias aos interesses e à independência do Brasil.

A quinta lição é que transferir para um governo estrangeiro a luta contra o PCC e o CV representa um retrocesso aos tempos coloniais ou ao período da ditadura militar, quando um embaixador brasileiro em Washington afirmou que "o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil". Mesmo reconhecendo o fracasso dos governos federal e estaduais no combate à violência urbana e ao crime organizado — com parlamentares que empregam criminosos, convivem com milícias, elogiam e condecoram bandidos ou recebem financiamento eleitoral de organizações criminosas —, a perda de soberania afeta negativamente todos os brasileiros. 

Ao integrarmos o conjunto de países associados ao terrorismo, os turistas poderão hesitar em visitar nossas cidades ao lembrarem que temos grupos comparáveis ao Boko Haram, à Al-Qaeda ou ao Hamas. Ficaria legitimada, ainda que improvável, a hipótese de bombardear morros do Rio de Janeiro para eliminar terroristas, da mesma forma que Gaza e Líbano são bombardeados sob esse argumento. A suspeita de que um banco ou outra empresa mantenha relações com o crime organizado poderá levar seus dirigentes a perderem o visto de ingresso nos Estados Unidos ou até mesmo serem mortos legalmente sob a legislação norte-americana. Da mesma forma, caso haja suspeita de que alguns dos iates ancorados na Baía de Botafogo transportem drogas, os órgãos de defesa dos Estados Unidos poderão sentir-se autorizados a atacá-los, como fazem com embarcações no litoral colombiano. Também poderiam sequestrar cidadãos brasileiros suspeitos de envolvimento com grupos classificados como terroristas: advogados que os defendem, operadores financeiros que movimentem seus recursos, dirigentes de bancos onde sejam depositados lucros oriundos do crime, juízes que tenham proferido sentenças favoráveis ou parlamentares que tenham empregado ou condecorado integrantes dessas organizações.

A sexta lição é que, na disputa entre os "partidos da soberania" e os "partidos da submissão", o Brasil precisa que os eleitores rejeitem candidatos vinculados a partidos contrários à nossa independência. Em 2025, o tarifaço de Trump nos uniu; em 2026, o "terroraço" deve nos unir em defesa da soberania nacional, baseada na cooperação internacional, jamais na submissão ao governo de outra nação.

 


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