Na mitologia grega, a sereia surge como uma criatura profundamente atraente, sedutora e irresistível. A lenda diz que os marinheiros abandonavam suas embarcações ao ouvir a doce melodia hipnótica. Mergulhavam mar adentro ludibriados pela sedução e sofriam naufrágios fatais. O canto da sereia é uma metáfora precisa para a vida do crime. Ele te arrasta por cifrão e cobra com juros. O ditado "cadeia ou caixão" não é clichê. É crônica de morte anunciada.
A criminalidade é como um polvo. Tem vários braços e funções. Tratemos de um, talvez o primogênito: o aliciamento. Esse herdeiro nasce com uma pergunta muito clara: "O que você tem a me oferecer?". A resposta é aquilo que o jovem encontra na porta de casa. O glamour, a oferta, o pertencimento, o cargo, a importância, o poder. É uma guerra travada entre Estado, família e crime. Uma corrida contra o tempo em que quem chega primeiro faz o estrago. Para o bem ou para o mal.
A série documental Territórios, da GloboPlay, desmembra o crime organizado. Aborda desde o surgimento das facções até os estilhaços que ferem a sociedade. Em um dos episódios, revela a facilidade da inserção no crime em uma das favelas do Rio de Janeiro. As próprias "linhas de frente" das forças de segurança são unânimes ao afirmar que há controle faccioso em determinadas áreas.
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Limitadas são as portas que uma criança gerida na zona de fogo tem para abrir. É injusto e cruel atribuir a um menor de idade o peso da liberdade de escolha. O questionamento que orbita essa covardia é: essa criança tem, de fato, capacidade concreta para exercer a liberdade? Na calçada da própria residência, ela vê os colegas ganhando dinheiro, ostentando tênis ou boné novos. Rodeada de mazelas, pensa: "Quero também".
Como uma comida apetitosa servida em uma bandeja de aço, a oferta chega em um piscar de olhos. O "contrato empregatício" dispensa burocracia e formalidade. O cargo? Aviãozinho. Mas há chances de promoção, a depender do desempenho do funcionário. Embora inicial, o posto já cobra seu preço. Ele é o primeiro degrau do calabouço.
Para os grandes traficantes, a cooptação de menores é estratégica: permite mais movimento na engrenagem criminosa e dificulta a punição. O Comando Vermelho já permitia o batismo de adolescentes. Em menor escala, o Primeiro Comando da Capital (PCC) adotou o mecanismo, mas, até hoje, não oficializou a regra em estatuto.
No final de 2015, o grupo de rap brasiliense Pregadores da Paz lançava a música "Canto da sereia". Em um trecho, a narração da vida bandida com erros ortográficos propositais: "Vários convite, vários drink. Só quebrada de elite, com as mina de boutique o crime faz vários convite. Te arrasta por cifrão, cada um na sua função pagando de ladrão (...) Quantos se perderam? No crime se envolveram. Aí foi louça pro parceiro, a morte veio num isqueiro".
É isso. A identidade, o pertencimento e o falso luxo tocam a campainha insistentemente. Na vida do crime, quanto mais "soldados" melhor. Quando morrem nas guerras, a substituição é quase que imediata. Me parece que, para o Estado, parece restar o conformismo. Ouço muito a frase: "são as escolhas". É o álibi perfeito. Mas refuto ao perguntar: quais foram todos os caminhos, para além daqueles oferecidos pelo crime, que o Estado propôs? A verdade é que nenhuma mãe coloca filho no mundo para virar bandido. Se o posto inicial na engrenagem criminosa é o primeiro degrau do calabouço, a indiferença é o último. Nesse descompasso, a culpa é coletiva.
