
Ricardo de Figueiredo Caldas — vice-presidente da Associação Brasileira das Empresas de Software (Abes) e ex-presidente do Sindicato das Indústrias de Informação (Sinfor)
Há sonhos que demoram décadas para se tornar realidade. Este é um deles — e vale a pena contá-lo desde o começo.
Corria o ano de 2001 quando, na festa de inauguração da Wise Telecomunicações, no Setor Industrial Bernardo Sayão, um diálogo simples entre dois dirigentes do Sindicato das Indústrias de Informação (Sinfor) plantou a semente do que viria a ser o Parque Tecnológico de Brasília. Eu era o primeiro vice-presidente da entidade. Antônio Fábio Ribeiro, recém-empossado presidente, havia acabado de proferir um discurso vibrante sobre o papel estratégico das empresas de TI para o Distrito Federal. Ao final do evento, ele me fez uma pergunta direta: qual seria a principal realização da gestão que se iniciava?
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Minha resposta foi imediata: o setor precisava de uma área dedicada exclusivamente à tecnologia da informação. O Polo Bernardo Sayão nascera com esse propósito, mas havia se descaracterizado. Antônio Fábio respondeu com a objetividade que lhe era peculiar: "Faremos uma pesquisa com os nossos associados para medir essa necessidade". Em parceria com o Sebrae-DF, o levantamento foi realizado. A resposta do empresariado foi inequívoca: havia demanda real por um espaço próprio para o setor. Nascia o embrião do Parque Tecnológico Capital Digital.
Com agilidade, Antônio Fábio organizou um grande evento na residência oficial de Águas Claras, na gestão Roriz. Mais de 400 pessoas reunidas para conhecer a ideia e assinar um protocolo de intenções para a chamada Cidade Digital. A partir daí, seguiram-se discussões, planejamento e a escolha do terreno. A Terracap apresentou três opções. Minha preferência recaía sobre a área ao lado do ParkShopping — infraestrutura consolidada, localização privilegiada. Mas Antônio Fábio enxergou mais longe: aquela área era pequena demais. A região próxima à Granja do Torto tinha o porte adequado para a dimensão do projeto. A diretoria do Sinfor o acompanhou.
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Definido o terreno, o desafio seguinte era jurídico: a área pertencia à União e precisava ser transferida ao GDF. Foram necessárias articulações no Congresso Nacional, legislação específica e, antes disso, a delimitação formal da poligonal do Parque Nacional — processo lento e cheio de controvérsias. Mas o resultado surpreendeu: ao delimitar o Parque Nacional, Brasília ganhou dois presentes de uma vez — um dos maiores parques urbanos do mundo, devidamente protegido, e um terreno triangular doado à Terracap para abrigar o futuro polo tecnológico. Costumamos dizer que aquela área pertence à sociedade brasiliense, e que a Terracap é sua fiel depositária.
Nos anos seguintes, vieram avanços importantes. Na gestão Arruda, o parque figurava entre os 20 projetos estruturantes do governo. Trabalhamos intensamente para que o Banco do Brasil instalasse em Brasília o espelhamento de seu datacenter — exigência das regras de Basiléia que outras cidades também disputavam. Vencemos. O datacenter do Banco do Brasil e o da Caixa Econômica Federal foram construídos no parque e operam até hoje, como âncoras do projeto. No governo Agnelo, sob a liderança de Jeovani Salomão, o esforço do Sinfor se concentrou na licitação da área para dar início efetivo às obras. A expectativa era grande — mas a licitação fracassou.
Em 2015, assumi a presidência do Sinfor por dois mandatos. Foram anos de avanços e percalços: o projeto sofreu uma descaracterização na gestão Rollemberg, quando foi renomeado Biotic e incorporou a biotecnologia ao escopo. Foi sob o governo Ibaneis que o projeto voltou a ganhar tração real, com a criação do fundo imobiliário e o início das negociações para o Distrito de TI. Com a gestora Integral Brei e sob a presidência de Carlos Jacobino no Sinfor, chegamos ao marco que muitos imaginavam que não veriam: o nascimento do Distrito de Tecnologia e Inovação Antônio Fábio Ribeiro.
O nome é uma homenagem mais do que justa. Foi ele quem, numa manhã de 2001, reuniu 400 pessoas em torno de um sonho. Brasília levou mais de duas décadas para realizá-lo — mas realizou. E que venham as próximas.
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