André Gustavo Stumpf — jornalista
Caiu um muro ideológico na América Latina. As repercussões foram discretas, ninguém comemorou, nem chorou, mas o forte simbolismo da revolução cubana no imaginário político do continente virou passado, lembrança e história. O parlamento reunido em Havana, no início deste mês, aprovou o maior pacote de reformas econômicas desde que Fidel Castro tomou o poder, em 1959. Foram 176 medidas destinadas a enfrentar a grave crise econômica do país, marcada por escassez de produtos, apagões, inflação e queda da produção.
As principais medidas têm por objetivo ampliar o setor privado. Empresas particulares poderão crescer além de 100 empregados. O mesmo cidadão poderá possuir mais de uma empresa. Apareceu a liberdade para contratação de trabalhadores. O capital estrangeiro poderá participar diretamente de empresas privadas cubanas. Setores como agricultura, turismo, sistema financeiro e mercado cambial serão abertos a investidores nacionais e estrangeiros. Trata-se de profunda revolução dentro dos anteriores sólidos conceitos socialistas de Cuba. Fidel está se remexendo no túmulo.
Os cubanos descobriram agora o que os chineses perceberam décadas atrás: enriquecer é glorioso, sentença de Deng Xiao Ping que abriu o caminho do capitalismo de Estado e transformou a China na segunda maior economia do mundo. No espaço de algumas décadas, os chineses retiraram da pobreza cerca de 500 milhões de pessoas. São os novos consumidores que permitiram o desenvolvimento de fornecedores antes pouco atuantes, como os da América Latina e, em especial, do Brasil.
Outro exemplo de sucesso nessa área é o Vietnã, país que foi massacrado pelas forças armadas dos Estados Unidos. Os vietnamitas resistiram com soldados de pés descalços e soluções criativas. Obrigaram o invasor, derrotado, a abandonar o país. Morreram mais de 50 mil norte-americanos naquela guerra. O Vietnã do Sul não existe mais e Saigon, antiga capital, foi rebatizada como Ho Chi Min, nome do comandante geral das forças do Vietnã do Norte. O governo do país privatizou empresas estatais, admitiu a livre concorrência, entrou para Organização Mundial do Comércio e estabeleceu relações diplomáticas com os Estados Unidos.
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Os cubanos, depois de muitas hesitações, decidiram copiar os dois modelos de capitalismo de Estado. Empresas estatais poderão ser transformadas em sociedades de capital aberto. Além disso, bancos privados serão liberados para atuar no mercado interno do país. O governo anuncia também a intenção de reduzir os subsídios generalizados da economia, conceder autonomia para governos locais e reduzir a centralização das decisões econômicas em Havana.
O regime comunista cubano incendiou corações e mentes em toda América Latina. No continente, a guerra fria foi particularmente dura, porque o governo de Havana admitia a intenção de exportar sua revolução. Ernesto Che Guevara, o número dois do regime, foi preso e morto nas selvas da Bolívia, quando comandava a tentativa de promover a revolução comunista naquele país. Os serviços secretos norte-americanos localizaram o argentino/cubano, o prenderam e o mataram a sangue frio. Guevara passou a ser símbolo da revolução em todo mundo.
O sistema comunista conseguiu alguns sucessos em Cuba. A medicina passou a ser disponível a todos e a educação também chegou aos cidadãos. Porém, o fracasso na condução da economia contaminou o esforço inicial. A má gestão política e estratégica levou o país a depender da ajuda da União Soviética. Quando o comunismo naufragou em Moscou, a economia cubana entrou em declínio. Obteve ajuda significativa da Venezuela, com petróleo a preços subsidiados, mas depois que os norte-americanos sequestraram Nicolás Maduro, ex-homem forte em Caracas, a ajuda terminou. E o dinheiro acabou. O país ficou sem energia elétrica, sem combustíveis, sem emprego e sem uma economia razoável.
A fuga de pessoas do país foi significativa. Apenas para o Brasil, em 2025, foram 75.599 pedidos de refúgio, aumento de 10,9% em comparação com o ano anterior. Os cubanos conseguem vistos para visitar a Guiana (ex-inglesa) e de lá atravessam a fronteira com Roraima, onde reivindicam a condição de refugiados. O forte embargo econômico que os Estados Unidos impuseram ao governo da ilha tem responsabilidade na queda do regime. Explica muito, mas não explica tudo. O sistema criado por Fidel Castro foi responsável pelo alto nível de concentração de poder, perseguição e morte sistemática de opositores e a péssima gestão do país.
O sonho libertário que varreu a América Latina virou utopia. Desfez a face heroica do regime desenhada pelo filósofo Jean Paul Sartre em seu famoso livro Furacão sobre Cuba, que incendiou o imaginário da juventude no continente. Tudo isso virou história.
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