O Dia Nacional do Diabetes, lembrado na última sexta-feira, alerta para um dos desafios mais relevantes da saúde pública brasileira. Segundo as estatísticas oficiais, há pelo menos 16 milhões de pessoas acometidas com o diabetes 2. Diferentemente do diabetes 1, doença hereditária identificada muitas vezes durante a infância, essa variante adquire as características de uma doença crônica entre adultos, decorrente da produção insuficiente ou da má absorção da insulina, hormônio responsável pelo controle do açúcar no sangue. O diabetes tipo 2 se torna uma ameaça real quando associada a hábitos como alimentação inadequada, sedentarismo e obesidade, fatores de alto risco para a saúde do organismo.
Do ponto de vista de saúde pública, a primeira providência é ampliar o diagnóstico precoce. No caso do diabetes, quanto mais cedo se identificar os sinais no paciente, maiores as chances de evitar as consequências mais graves da doença. Uma face dolorosa desse processo ocorre quando o paciente descobre os efeitos avançados do distúrbio e é submetido a uma medida drástica: a amputação dos membros inferiores.
Para a Sociedade Brasileira do Diabetes, superar a desigualdade regional no atendimento médico constitui tarefa imediata. Na região Nordeste, observa-se uma alta incidência de mortes prematuras relacionadas ao diabetes — são 34 casos por 100 mil habitantes. É preocupante, também, o grande número de casos de amputação de membros inferiores. De 2012 a 2021, o número de mutilações cresceu 173% em Alagoas e 146% no Ceará. "As amputações evidenciam iniquidades no acesso oportuno ao diagnóstico e seguimento do tratamento, especialmente em regiões com vazios assistenciais especializado e preventivo", afirma a doutora Bianca Pititto, coordenadora do Departamento de Saúde Pública, Epidemiologia, Economia da Saúde e Advocacy da Sociedade Brasileira de Diabete (SBD).
Os desafios no atendimento ocorrem tanto em regiões desassistidas — Roraima, no Norte, registrou aumento de 160% no número de amputações — quanto nos estados mais populosos do país. Ainda de acordo com a SBD, mais de 40% das amputações de membros inferiores estão concentradas na região Sudeste. Isso ocorre em razão da grande demanda por serviços de saúde. "As populações fora dos centros metropolitanos enfrentam obstáculos persistentes, como as longas distâncias até unidades de referência, a escassez de serviços de saúde especializados, o atraso no diagnóstico e fragmentação do cuidado", constata Bianca Pititto. "Tudo isso leva a menor continuidade e adesão ao tratamento", alerta.
Reforçar a atenção primária constitui, portanto, medida essencial para o tratamento profilático do diabetes. Existem iniciativas relevantes nesse sentido. Em abril, o Ministério da Saúde lançou a Campanha Lava-Pés 2026, com foco na atenção aos pacientes que sofrem de pé diabético, uma das manifestações da doença em estágio crônico. A parceria com a Universidade Federal de Pernambuco teve como objetivo avaliar o público em geral e repassar orientações sobre alimentação saudável, uso de medicamentos, práticas de autocuidado, além de aferição da pressão arterial. Realizada em Unidades Básicas de Saúde, a iniciativa buscou alertar, de forma especial, para a prevenção de complicações como feridas, infecções e amputações.
Tão importante quanto a ação do poder público é a conscientização da sociedade. É absolutamente fundamental o brasileiro adotar hábitos saudáveis a fim de evitar os efeitos maléficos da doença. Exercícios físicos frequentes (mais de 150 horas de atividade aeróbica por semana, recomendam os médicos), controle da alimentação e exames periódicos são ações que podem reduzir muito o sofrimento individual e familiar, além de evitar a sobrecarga nos serviços públicos de saúde.
O Dia Nacional do Diabetes precisa ser lembrado como um alerta permanente, a ser observado não apenas em 26 de junho, mas durante o ano inteiro. A batalha contra esse mal exige disciplina, consciência e organização. O Brasil é capaz disso.
