
A 68ª Reunião Ordinária do Conselho do Mercado Comum e a Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, que serão realizadas nas próximas segunda e terça-feira, em Assunção, no Paraguai, ocorrem em um momento decisivo para o bloco sul-americano. O Mercosul chega aos 35 anos num cenário marcado pela fragmentação das cadeias produtivas, pela disputa geopolítica entre EUA e China e pelo recrudescimento de medidas protecionistas que ameaçam o comércio internacional. Nesse contexto, ampliar mercados deixou de ser apenas uma estratégia de crescimento para se tornar uma necessidade econômica e política dos países da região.
A reunião marca também o encerramento da presidência temporária paraguaia e sua transferência ao Uruguai, que deverá dar continuidade à agenda de abertura comercial construída ao longo dos últimos dois anos. O objetivo é consolidar o Mercosul como uma plataforma de inserção internacional, reduzindo a dependência de poucos parceiros comerciais e ampliando oportunidades para exportações industriais, agrícolas e de serviços.
A prioridade do Brasil na cúpula é acelerar negociações com novos parceiros, entre eles Canadá, Emirados Árabes Unidos, Japão, Coreia do Sul, Vietnã e Indonésia. A estratégia ganha importância num momento em que Washington discute novas barreiras tarifárias sobre produtos brasileiros. Embora o mercado norte-americano continue sendo um dos principais destinos das exportações brasileiras, o governo avalia que depender excessivamente de poucos compradores aumenta a vulnerabilidade da economia.
Em termos gerais, a grande novidade da cúpula será dar início às negociações para um acordo de parceria econômica entre Mercosul e Japão. Em dezembro de 2025, foi firmado um marco de parceria estratégica entre as duas partes, e, no mês seguinte, ocorreu em Assunção a primeira reunião de diálogo político e econômico para a abertura formal das negociações comerciais.
O interesse japonês é amplo. O país busca garantir acesso seguro a alimentos, minerais críticos, energia e matérias-primas necessárias à indústria de alta tecnologia, ao mesmo tempo em que procura diversificar suas cadeias de suprimentos diante das tensões no Indo-Pacífico. Para o Mercosul, especialmente para o Brasil, a oportunidade está na ampliação das exportações de carnes, grãos, celulose, café, açúcar, etanol e produtos industrializados, além da atração de investimentos japoneses em infraestrutura, transição energética e inovação tecnológica.
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As relações entre Brasil e Japão oferecem uma base sólida para esse avanço. O Brasil abriga a maior comunidade de descendentes de japoneses fora do Japão, enquanto centenas de milhares de brasileiros vivem e trabalham em território japonês. Essa integração histórica facilita o diálogo político e empresarial.
A cúpula também analisará a implementação do acordo Mercosul-União Europeia — assinado em janeiro de 2026, após mais de duas décadas de negociações, mas que enfrenta obstáculos criados por produtores rurais da Polônia e França que receiam a concorrência sul-americana, além de complexas negociações jurídicas. Governos europeus também condicionam a ratificação ao cumprimento de exigências ambientais e de sustentabilidade.
Com pauta diversa, é clara a intenção de ampliar mercados nas discussões da próxima semana. No caso da realidade brasileira, o governo acerta em sentar à mesa apostando no pragmatismo e na diplomacia, sobretudo em um momento em que a oposição, na tentativa de obter dividendos eleitorais, tem favorecido impasses econômicos.
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