
O governo federal decidiu que vai parar de ser pego de surpresa pelo clima. Era hora. O anúncio feito ontem pelo Ministério da Saúde de um plano para investir R$ 9,8 bilhões para preparar o SUS aos impactos do El Niño e das mudanças climáticas é, antes de tudo, um reconhecimento tardio, mas necessário, de que a crise climática não é apenas uma pauta ambiental. Trata-se também de uma crise de saúde pública, e precisa ser gerida como tal.
Os números do próprio governo ajudam a dimensionar o que está em jogo. Um estudo recente da Fiocruz contabilizou 120 mil mortes ao longo dos últimos 20 anos diretamente relacionadas ao aumento da temperatura média em diversas regiões do país. Não são vítimas de furacões ou tsunamis: são brasileiros mortos pelo calor, pela seca, pelas enchentes, pela desorganização de um sistema que ainda responde a desastres climáticos no improviso. O plano anunciado, com 27 metas, 93 ações e horizonte até 2035, é a primeira tentativa sistemática de mudar essa lógica.
O desenho do programa tem mérito. A criação de oito Centros Integrados de Saúde e Clima distribuídos pelo país, o Painel Nacional de Excesso de Calor com alerta precoce de até cinco dias e a expansão da Força Nacional do SUS para resposta em até 12 horas são medidas concretas, não promessas genéricas de descarbonização para a próxima década. A ênfase na coordenação entre União, estados, municípios e Defesa Civil também é acertada: desastres climáticos não respeitam fronteiras administrativas, e a fragmentação da resposta tem sido historicamente um dos maiores obstáculos ao socorro eficaz.
Os riscos que o SUS enfrentará nos próximos meses são conhecidos e mapeáveis. O calor extremo potencializa doenças cardiovasculares e respiratórias, mata idosos em silêncio e colapsa prontos-socorros que operam no limite. As chuvas intensas no Sul trazem leptospirose, hepatite A e contaminação de mananciais. A seca no Norte e Nordeste favorece a proliferação do Aedes aegypti em reservatórios domésticos, ampliando o risco de dengue, zika e chikungunya em regiões com cobertura sanitária precária. Não se trata de cenários hipotéticos — são os mesmos vetores que já se manifestaram nos últimos ciclos climáticos severos e que tendem a se intensificar com o El Niño. A diferença desta vez é que o governo chegou antes. O desafio é garantir que o plano chegue junto.
Dito isso, é preciso cautela sobre o contexto em que esse plano nasce. O Brasil entra no segundo semestre sob a ameaça de um super El Niño, com o Sul exposto a chuvas devastadoras e o Norte e Nordeste caminhando para secas severas. A memória das enchentes que submergiram Porto Alegre em 2024 ainda é recente. Planejar com horizonte até 2035 é prudente, mas a urgência do presente não permite que as metas de longo prazo sirvam de álibi para a lentidão no curto prazo. O primeiro Centro Integrado de Saúde e Clima, que será inaugurado hoje na Bahia, precisa ser o começo de uma execução veloz, não o símbolo fotogênico de um plano que engaveta.
No mundo ideal, esse plano não seria necessário. A melhor política de saúde climática seria uma política climática de verdade, com redução efetiva de emissões, transição energética, proteção de biomas. Mas o mundo ideal ficou para trás, à medida que a humanidade já ultrapassou o chamado ponto de não retorno das mudanças climáticas, e o Brasil precisa agir no mundo que tem. Nesse cenário, preparar o SUS para o que já está chegando é um bom começo. O teste será a execução.
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