ARTIGO

Um referencial para o uso da inteligência artificial na educação

Lançado pelo MEC, referencial para o uso da IA evidencia uma preocupação legítima: garantir que, mesmo em meio a tantas inovações, a educação permaneça ancorada em seus fundamentos humanos

. -  (crédito: Reprodução)
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Mozart Neves Ramos titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da USP de Ribeirão Preto; Gabriela Camarottidiretora pedagógica do ensino fundamental da Escola Vila Aprendiz

Este artigo tem como referência o documento, lançado pelo Ministério da Educação (MEC), intitulado Referencial para o Desenvolvimento e Uso Responsável de Inteligência Artificial na Educação, visando organizar princípios, alertar para riscos e indicar caminhos possíveis sobre o tema em questão.

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Mas, talvez, o aspecto mais interessante do Referencial não esteja apenas no que ele afirma, e, sim, no que ele revela sobre o momento que vivemos na educação. Os dados mais recentes ajudam a dimensionar esse cenário. Segundo a pesquisa TIC Educação, conduzida pelo Cetic.br, em articulação com o CGI.br, cerca de 70% dos estudantes do ensino médio já utilizam inteligência artificial (IA) em suas atividades, enquanto mais de 40% dos professores recorrem a essas ferramentas para planejar aulas e produzir material didático. Ao mesmo tempo, menos de um terço dos alunos relata ter recebido orientação sobre como avaliar criticamente as respostas geradas por essas tecnologias. Esses números revelam algo central: a inteligência artificial já entrou na escola, mas a mediação pedagógica ainda não entrou na inteligência artificial.

É nesse contexto que o Referencial ganha força. O documento reafirma algo essencial: a tecnologia não pode substituir o professor, nem se sobrepor ao projeto pedagógico. Ao insistir nisso, evidencia uma preocupação legítima: garantir que, mesmo em meio a tantas inovações, a educação permaneça ancorada em seus fundamentos humanos.

Ao defender que a IA seja instrumento complementar e que a supervisão humana seja indispensável, o MEC recoloca o humano no centro do debate. Isso reafirma, no nosso entendimento, que a tecnologia expande as fronteiras, mas o ser humano é a bússola. As fronteiras da escola não são mais limites físicos, mas horizontes de colaboração entre a inovação tecnológica e a ética humana. A IA automatiza o processo, libertando o professor para focar no propósito humano.

O Referencial também acerta ao apontar riscos concretos, como a perda de autoria, a dependência de respostas prontas, a reprodução de desigualdades e os desafios ligados à privacidade e à ética. Mais do que alertar, ele nos convida a uma postura crítica e responsável diante dessas transformações. Isso porque não estamos apenas diante de uma nova ferramenta. Estamos diante de uma mudança profunda na forma como o conhecimento circula, se organiza e se produz. E, diante dessa realidade, a pergunta não é apenas como usar a tecnologia, mas como preservar aquilo que é essencial no processo de aprender. Porque a experiência não é um detalhe pedagógico. É o centro.

O Referencial aponta a necessidade de desenvolver pensamento crítico, criatividade e discernimento ético. Competências urgentes do nosso tempo. Mas elas não se constroem a partir da tecnologia. Elas se constroem na relação, no diálogo, no confronto de ideias, na escuta e no tempo compartilhado. Aprender continua sendo, antes de tudo, um ato relacional. É na troca entre estudantes, na mediação do professor e no espaço de confiança construído na escola que o conhecimento ganha sentido.

Talvez seja exatamente aqui que a escola contemporânea precise se reposicionar; não como espaço que compete com a tecnologia, mas como espaço que dá sentido ao seu uso, promovendo encontros e desafios reais, ou seja, aqueles que desenvolvem as competências essenciais: as humanas. Em um tempo de automatização, a escola precisa ser o espaço do encontro, criando oportunidades de conversas, experiências e debates. Porque aprender não é apenas chegar a uma resposta, mas percorrer um caminho.

Nesse cenário, é preciso formar professores que não se sintam ameaçados pela tecnologia, mas fortalecidos em seu papel. E formar estudantes que não sejam apenas usuários de inteligência artificial, mas sujeitos capazes de questioná-la, interpretá-la e utilizá-la de forma ética e crítica. É claro que a IA pode e vai apoiar esse percurso, mas não substitui aquilo que é essencial: o encontro entre pessoas que aprendem juntas.

O Referencial do MEC cumpre um papel importante ao organizar diretrizes e reafirmar princípios. Ele nos oferece um ponto de partida sólido. Cabe a nós, escola e sociedade, usar a inteligência artificial para aprofundar perguntas e conhecimentos, e não para acelerar respostas. Porque, no fim, é essa escolha que vai definir não o futuro da tecnologia na educação, mas o futuro da própria educação.

 

 

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Por Opinião
postado em 02/07/2026 06:00
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