Visão do Correio

A humanização da saúde na era de algoritmos

É imperativo restabelecer os limites de atuação das tecnologias por meio de uma governança ética robusta e de uma revisão curricular nas faculdades de medicina

PRI-0106-OPINI.jpg, medicina, inteligência artificial, IA, cuidado -  (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
PRI-0106-OPINI.jpg, medicina, inteligência artificial, IA, cuidado - (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)

A medicina contemporânea está no limiar de sua transformação mais profunda desde a introdução dos métodos diagnósticos por imagem, no século passado. A integração massiva de sistemas baseados em inteligência artificial (IA) e redes neurais promete uma era de precisão cirúrgica na detecção precoce de patologias complexas, processando volumes de dados clínicos que extrapolam a capacidade cognitiva de qualquer especialista. Mas essa vertiginosa corrida tecnológica traz uma armadilha sutil: a ilusão de que a eficácia estatística pode substituir o julgamento e a sensibilidade humana. À medida que os algoritmos ganham espaço nos centros médicos, é preciso questionar em que ponto a automação deixa de ser uma ferramenta de suporte para se tornar uma barreira entre o profissional e aquele que busca a cura.

Diante desse cenário, surge a questão de que a busca por eficiência operacional ou precisão probabilística traga também a desumanização do atendimento. Depois de tantos avanços tecnológicos, além dos estudos e pesquisas, o diagnóstico, hoje, é o resultado de uma análise fundamentada no conhecimento e na escuta ativa, com uma anamnese detalhada, aplicando as ferramentas disponíveis junto a esse processo. Transferir o tratamento a sistemas operacionais pode transformar a medicina em um serviço automatizado.

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Outro ponto que merece discussão é o fato de que a evolução da IA nos diagnósticos impõe dilemas de difícil resolução no campo civil e da transparência. Os algoritmos de aprendizado profundo funcionam por meio de conexões lógicas tão complexas que, muitas vezes, se tornam incompreensíveis. Se um sistema de IA falha, a quem cabe a responsabilidade legal e moral? Atribuir o erro à máquina pode ser um escape perigoso; culpar o médico que apenas seguiu a recomendação automatizada é uma injustiça conceitual.

O debate ainda coloca que o domínio tecnológico nos consultórios afeta a relação médico-paciente, historicamente baseada no acolhimento do sofrimento. Quando o profissional de saúde passa a dedicar mais tempo de consulta à alimentação de telas e à interpretação de escores do que ao olhar atento e ao exame de quem o procura, o vínculo terapêutico é severamente rompido. Nessa realidade, o paciente deixa de ser visto em sua totalidade existencial, biológica e social. O efeito placebo da presença médica atenciosa e a segurança transmitida por uma voz empática, elementos comprovadamente fundamentais na adesão a tratamentos e na recuperação de enfermos, ficam comprometidos se o método for unicamente através de uma interface digital.

Assim, é imperativo restabelecer os limites de atuação dessas tecnologias por meio de uma governança ética robusta e de uma revisão curricular nas faculdades de medicina, proporcionando ao profissional de saúde o direito e o dever de exercer a contestação ativa de qualquer laudo automatizado. Além disso, os currículos de formação médica precisam ser reformulados, deslocando o foco para o desenvolvimento de competências essencialmente humanas. Com a IA assumindo os diagnósticos, o ideal é tirar do médico as tarefas burocráticas e ampliar sua capacidade de leitura de padrões, dando a ele o tempo necessário para exercer o cuidado atencioso do paciente. A tecnologia deve servir para humanizar e aumentar a eficiência da prevenção, diagnóstico e tratamento, sem simplesmente mecanizar a medicina.

 

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Por Opinião
postado em 13/07/2026 03:01 / atualizado em 13/07/2026 05:36
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