ARTIGO

Ninguém morre de chuva

Ainda que não sejam os principais responsáveis por eventos climáticos extremos, os mais pobres são os mais atingidos por eles. Mas, diferentemente do que muitos dizem, as chuvas não matam ninguém. A falta de infraestrutura, sim

Quem mora no Distrito Federal sabe que o período da estiagem, previsto para os próximos meses, é de lascar! Um castigo para os desavisados que vêm de fora e sofrem com a aliança entre altas temperaturas e baixíssima umidade. A novidade deste ano, veja só, é de um cenário ainda pior, com ondas de calor na maior parte do país e chuvas acima da média na região Sul. O tempo de se preparar é agora.

Longe de mim ser alarmista. Os avisos são do boletim do Painel El Niño 2026-2027, divulgado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação na última semana. Segundo o documento, o fenômeno climático pode resultar no ressecamento da vegetação, criando condições propícias para queimadas e incêndios florestais. Não bastando, a redução das chuvas pode afetar pastagens, diminuindo a disponibilidade de água para a pecuária e aumentando o estresse das lavouras.

Embora o El Niño seja um fenômeno natural, o aquecimento global amplifica seus impactos, gerando eventos climáticos extremos. "Naturalmente", saúde, alimentação e economia são afetados. Fato é que, ainda que não sejam os principais responsáveis por esse problemão ambiental, os mais pobres, pasmem, são os mais atingidos por ele. A saber, um estudo publicado na prestigiada Nature Climate Change aponta que os 10% mais ricos da população mundial foram responsáveis por cerca de dois terços do aquecimento global desde 1990. 

O conto do vigário está no discurso de que tanto as causas desse apocalipse quanto as possíveis saídas para ele são individuais. Fazem-nos acreditar que a responsabilidade por morar em uma encosta é de quem, depois de uma tragédia, perde seu teto. Acreditam que basta comprar um ar-condicionado e se trancar em um apartamento fresco para lidar com o calor. Reproduzem o discurso de que as chuvas são as culpadas por mortes durante enchentes. A chuva, meus amigos, não mata ninguém. A falta de infraestrutura, sim. 

Desmistificar esses discursos e agir coletivamente são, esses sim, caminhos possíveis. Criar redes de apoio e alerta na comunidade pode ser uma opção, além de cobrar as autoridades pela revisão de planos de contingência e pelo fortalecimento dos sistemas de monitoramento. A articulação entre órgãos de Defesa Civil, recursos hídricos, meio ambiente, saúde e assistência social é fundamental. Agir em conjunto é, sempre, a melhor das alternativas. 

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