ELEIÇÕES 2026

Trump-Lula: a política externa entra de vez na eleição presidencial

A tensão diplomática com os EUA e a defesa da soberania nacional ganham protagonismo inédito, sacudindo a corrida presidencial de 2026

"Na ciência política, há uma percepção consolidada: quando um país interfere em questões internas de outro, cresce a tendência de reação em defesa da soberania. Nem sempre importa se essa interferência existe de fato. Basta que ela seja percebida para despertar um sentimento nacionalista entre parte do eleitorado" - (crédito: Flow)

Encerradas as convenções partidárias, a campanha presidencial que se inicia daqui a nove dias começa a ganhar forma. Entre os temas que passam a disputar espaço no debate aparece um assunto que, em outras eleições, costumava ficar restrito a perguntas isoladas em debates, sem aparecer na propaganda eleitoral no rádio e na televisão: a política externa. Desta vez, porém, o acirramento das relações entre Brasil e Estados Unidos ameaça romper essa barreira e influenciar diretamente a corrida pelo Palácio do Planalto.

A restrição ao visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, em uma tentativa do governo americano para acelerar o agrément do diplomata indicado pela Casa Branca para trabalhar no Brasil é mais um ingrediente em um ambiente já desgastado desde que Donald Trump anunciou tarifas extras sobre produtos brasileiros no ano passado. Ao justificar a medida, em carta divulgada, o presidente americano relacionou a decisão ao tratamento dado pela Justiça brasileira ao ex-presidente Jair Bolsonaro no processo por tentativa de golpe de Estado. Ou seja, trata-se de retaliação na mais pura essência.

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Na ciência política, há uma percepção consolidada: quando um país interfere em questões internas de outro, cresce a tendência de reação em defesa da soberania. Nem sempre importa se essa interferência existe de fato. Basta que ela seja percebida para despertar um sentimento nacionalista entre parte do eleitorado.

As pesquisas mais recentes sugerem que esse movimento já está em curso. Levantamento da Atlas/Intel, divulgado semana passada, mostra que 53% dos brasileiros consideram provável uma tentativa de Trump de influenciar a eleição presidencial deste ano. Outra sondagem, realizada pelo Meio/Ideia, no entanto, indica que o presidente americano tem pouca capacidade de transferir apoio eleitoral no Brasil. Para 45% dos entrevistados, um eventual endosso não altera a intenção de voto, enquanto apenas uma fatia reduzida avalia essa manifestação de forma positiva.

Os números da Meio/Ideia revelam ainda outro aspecto relevante. Mais da metade dos brasileiros defende que a escolha do próximo presidente seja feita exclusivamente pelos eleitores do país, sem influência de governos estrangeiros. Trata-se de um ponto que costuma atravessar divisões ideológicas e reunir cidadãos de diferentes campos políticos em torno da defesa da autonomia nacional.

É previsível que Lula tente explorar esse ambiente. O discurso de defesa da soberania se encaixa na narrativa de resistência a pressões externas. Para a oposição, o contexto é mais delicado. Enquanto permanecer a percepção de que Washington busca influenciar o cenário político brasileiro, qualquer aproximação com Trump tende a produzir ganhos limitados e até gerar desgaste. O quadro se torna mais sensível diante do esfriamento das relações com a Argentina de Javier Milei.

Tradicionalmente, as eleições presidenciais no Brasil são definidas por temas ligados ao cotidiano da população, como inflação, emprego, renda, saúde e segurança pública. Não deixará de ser assim em 2026, mas é fato que a política externa conquistou um protagonismo incomum. Deixou de ser um tema periférico e estará presente, de forma inédita, no debate eleitoral brasileiro.

 

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postado em 07/08/2026 05:00 / atualizado em 07/08/2026 06:14
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