Visão do Correio

Reciprocidade exige cautela e negociação

O governo brasileiro não fechou a porta à negociação com a administração de Donald Trump. A cautela tem explicação: os prejuízos não se limitariam aos exportadores atingidos pelas sobretaxas

. -  (crédito: maurenilson)
. - (crédito: maurenilson)

Ao iniciar formalmente o processo previsto na Lei da Reciprocidade Econômica contra as novas tarifas dos Estados Unidos, o governo brasileiro não fechou a porta à negociação com a administração de Donald Trump. Expressa pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, a cautela tem explicação: os prejuízos não se limitariam aos exportadores atingidos pelas sobretaxas. Podem alcançar cadeias produtivas brasileiras que dependem de máquinas, componentes, tecnologia e insumos norte-americanos.

Trump adotou contra o Brasil duas medidas distintas com base na Seção 301 da Lei de Comércio. Uma sobretaxa de 25% decorre exclusivamente da investigação sobre práticas brasileiras em áreas como comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, acesso do etanol ao mercado brasileiro e desmatamento. Outra, de 12,5%, integra uma ação contra dezenas de parceiros comerciais que, segundo Washington, não adotariam mecanismos suficientes para impedir mercadorias produzidas com trabalho forçado.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Levantamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostra que, dos US$ 40,4 bilhões exportados pelo Brasil aos EUA em 2024, cerca de US$ 6,6 bilhões, o equivalente a 16,5%, correspondem a mercadorias atingidas pelas duas ações da Seção 301, com adicional de 37,5%. Outros US$ 800 milhões, ou 1,9%, ficam sujeitos apenas à tarifa de 25%; e US$ 1,9 bilhão, equivalentes a 4,7%, somente aos 12,5%.

Há ainda US$ 9,8 bilhões, 24,2% das vendas de 2024, submetidos às tarifas setoriais da Seção 232, principalmente relacionadas a determinados produtos industriais. Por outro lado, cerca de US$ 21,3 bilhões, ou 52,7% das exportações brasileiras para o mercado norte-americano, permanecem fora dessas sobretaxas extraordinárias, sujeitos apenas às tarifas ordinárias: café, carnes, aeronaves, suco de laranja, frutas, químicos e grande parte da celulose.

Uma resposta brasileira linear, impondo tarifas indiscriminadamente às importações norte-americanas, poderia produzir efeitos colaterais sobre empresas e consumidores brasileiros sem necessariamente favorecer os setores diretamente atingidos nos Estados Unidos. O comércio bilateral já acusa os efeitos da deterioração política e comercial. As exportações brasileiras para os Estados Unidos, que haviam atingido o recorde de US$ 40,4 bilhões em 2024, caíram para US$ 37,7 bilhões em 2025. No primeiro semestre deste ano, recuaram outros 13%, para US$ 17,4 bilhões. A participação norte-americana nas exportações brasileiras caiu de 12,1% no primeiro semestre de 2025 para 9,4% no mesmo período de 2026.

EUA e Brasil mantêm cadeias produtivas integradas, e a composição das trocas é diferente daquela mantida pelo Brasil com vários de seus principais compradores de commodities. Além disso, a premissa de que os EUA estariam sendo prejudicados por um grande deficit comercial brasileiro não encontra respaldo nos dados.

Essa é a base objetiva para insistir nas negociações. O Brasil não se enquadra no padrão dos países contra os quais Washington costuma justificar barreiras pela existência de gigantescos deficits comerciais. Nesse ambiente, a Lei da Reciprocidade deve funcionar como instrumento de negociação.

Como destacou Durigan, o processo exige ouvir aqueles que sofreriam os efeitos de uma eventual reação. Uma guerra comercial tende a criar grupos perdedores dos dois lados. A nossa alternativa é combinar instrumentos de defesa comercial, diálogo diplomático e preservação das cadeias econômicas que interessam aos dois países. 

 

 

  • Google Discover Icon
Por Opinião
postado em 15/08/2026 05:00
x