Futebol

O Game of Thrones da Fifa

No Game of Thrones da Fifa, os pretendentes ao trono perceberam que existe uma maioria capaz de derrubar o rei. A questão é transformar insatisfação em poder

, -  (crédito: maurenilson)
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Gianni Infantino descobriu que até reis precisam contar votos. No trono da Fifa, o ítalo-suíço enfrenta uma rebelião inédita capaz de derrubá-lo. Uefa, AFC e Concacaf reúnem 136 das 211 associações filiadas à entidade. São 30 votos a mais do que os 106 necessários para formar maioria simples.

Na política do futebol, a aritmética raramente conta toda a história. Existe uma distância entre integrar um bloco e depositar a mesma cédula. O episódio do Coronel Nunes, em 2018, deveria estar na memória de quem se dedica a projetar resultados na Fifa. O então presidente da CBF contrariou o pacto dos 10 integrantes da Conmebol para apoiar a candidatura conjunta de EUA, Canadá e México à Copa de 2026. Preferiu Marrocos e rompeu o combinado. A atitude foi considerada traição grave. Ele ficou isolado.

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É nesse intervalo entre compromisso e decisão que Infantino pretende trabalhar. África e Conmebol permanecem próximas do dirigente. A Oceania declarou respaldo institucional, embora a Nova Zelândia tenha retirado o apoio. Na Ásia, seis federações árabes, entre elas Catar e Marrocos, anunciaram adesão à tentativa de permanência. Os 136 nomes associados à reação contra o comando atual não equivalem automaticamente a 136 votos depositados pela oposição. A fotografia do momento revela uma maioria potencial, não uma sentença.

Infantino reúne instrumentos de persuasão. A Conmebol defende uma Copa de 2030 com 64 participantes por mais jogos na Argentina, no Paraguai e no Uruguai. Mais seleções representam mais lugares disponíveis, maior número de confrontos, mais cidades, estádios. A Fifa estuda a proposta.

Anfitrião de parte da edição centenária em um combo com Espanha e Portugal, Marrocos surge no centro da discussão. A hipótese de uma final em Rabat é negada pela Fifa. Em seguida, vem o Mundial de 2034 na Arábia Saudita. E a corrida por 2038 começa a despontar no horizonte. Há alianças.

Como na série Game of Thrones, pactos são construídos, rompidos e reconstruídos conforme se aproxima a disputa pelo poder. Há semelhança no futebol internacional. O comando da Fifa não representa apenas uma cadeira em Zurique. Significa influência sobre sedes, calendários, formatos de competição, distribuição de partidas, receitas e oportunidades comerciais. Quem decide produz beneficiários. E favorecidos pelo poder costumam lembrar de quem lhes abriu a porta.

A oposição tem uma vantagem expressiva no papel, mas precisará convertê-la em uma coalizão eleitoral efetiva. Infantino carrega há 10 anos as relações políticas e conhece os diferentes interesses no mundo da bola. Pode oferecer protagonismo a quem reivindica espaço, vagas a quem deseja disputar a Copa, partidas a quem quer receber o Mundial e investimentos a mercados interessados em ampliar a presença no futebol. Não é necessário conquistar todos. Basta impedir que os adversários cheguem unidos aos 106 votos na assembleia de março de 2027.

O Brasil não pode assistir à disputa da arquibancada. A Conmebol declarou preferência pela permanência do suíço, e a futura direção da CBF encontrará uma Fifa em processo de rearranjo. A escolha da CBF terá consequências muito além da diplomacia esportiva: envolverá o peso do país na entidade, a relação com a Conmebol, à qual é vinculada, o calendário internacional e decisões capazes de afetar clubes e seleções.

No Game of Thrones da Fifa, os pretendentes ao trono perceberam que existe uma maioria capaz de derrubar o rei. A questão é transformar insatisfação em poder. Infantino ocupa a cadeira, conhece os caminhos do castelo e dispõe de tempo para seduzir companheiros (ou não) de jornada. No jogo da política, até o aliado mais convicto pode mudar de lado quando enxerga uma recompensa no horizonte. Não é diferente no futebol.

 


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MP
postado em 15/08/2026 05:00
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