
Por Pedro Zanetti, mestre em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e especialista em bioeconomia do Instituto Clima e Sociedade (iCS), e Carlos Magno Medeiros Morais, mestre em agroecologia e desenvolvimento rural sustentável pela Universidad Internacional de Andalucía e Fulbrighter na Cornell University
O El Niño pode aumentar as temperaturas mundiais entre agosto e outubro de 2026 e levar quase 49 milhões de pessoas para a fome extrema até 2027, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Embora seja um evento temporário e cíclico, que altera ventos, chuvas e temperaturas, ele se soma aos efeitos das mudanças climáticas. Nesse cenário, uma atividade merece destaque: a agricultura familiar. Ao mesmo tempo em que é cada vez mais ameaçada pela alteração do clima, é ela que garante boa parte da comida que chega à mesa dos brasileiros todo dia. Quando essa produção é afetada, há impactos sobre oferta, preços e acesso aos alimentos.
A agricultura familiar já é parte da solução porque constrói sistemas alimentares mais resilientes, sustentáveis e diversos, o que diminui riscos provocados por secas, geadas ou chuvas intensas; conserva recursos naturais (água, solo e biodiversidade); tem capacidade de reduzir emissões; e garante a segurança alimentar da população nas regiões distantes de grandes centros de distribuição, pois, diferentemente da agricultura industrial, cada bioma tem suas especificidades e produz alimentos que levam poucas horas para serem transformados em comida na mesa, desde o açaí na Amazônia ao queijo de manteiga no sertão paraibano. O diferencial são a diversidade e os circuitos curtos de comercialização, com uma pegada de carbono muito mais baixa.
No Brasil, a agricultura familiar é um setor estratégico. Segundo dados do último Censo do IBGE, apesar de ocupar apenas um quarto das terras, ela é a ocupação de quase 70% da mão de obra no meio rural. Entretanto, o principal instrumento para seu financiamento, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), ainda precisa reduzir a burocratização do acesso ao crédito às famílias, o que tem gerado desigualdades históricas. Para se ter uma ideia, em três décadas, segundo levantamento de microdados do Banco Central (Bacen), 47% dos recursos do Pronaf foram destinados à pecuária e à soja no Brasil — só na Amazônia, cerca de 85% das operações foram destinadas à pecuária, mostrando uma concentração ainda maior —, enquanto cadeias da sociobiodiversidade, como açaí, umbu, castanha e cacau nativo, continuam com acesso restrito ao crédito, apesar de seu potencial de gerar renda e resiliência às mudanças climáticas, conservar biomas e diversificar a produção.
É urgente, portanto, a aplicação da reforma agrária prevista na Constituição Federal, que permite desapropriar imóveis rurais que não cumprem sua função social, o que destrava terras improdutivas para a produção de alimentos. É preciso ainda ampliar a validade do Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF), hoje limitada a dois anos, e a rede de organizações emissoras, fundamental para o acesso de povos tradicionais, extrativistas e agricultores familiares às políticas de financiamento — uma das principais sugestões da campanha Sociobio no Pronaf, liderada pelo Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (Osociobio) e coordenada tecnicamente pela Conexsus. Hoje, cerca de 40% das famílias agricultoras ainda não têm CAF ativo, conforme nota técnica do Osociobio, fato que as impede de acessar o Pronaf e outras políticas públicas, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
O cenário dos eventos extremos está exigindo cada vez mais adaptação e resiliência dos agricultores familiares, que são essenciais para o país e têm grande potencial de contribuir com a segurança alimentar e a saúde dos brasileiros, se acessarem o crédito agrícola. No Semiárido, por exemplo, a agricultura familiar já vem promovendo resiliência climática há décadas. As famílias criaram estratégias para conviver com o ambiente de escassez de água, secas recorrentes e alta variabilidade das chuvas, por meio de captação de água da chuva, bancos comunitários de sementes e sistemas agroecológicos.
Fortalecer a agricultura familiar significa, assim, aumentar a capacidade de adaptação dos territórios rurais, proteger a produção de alimentos, conservar ecossistemas e promover práticas agrícolas que contribuem para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e para garantir o abastecimento da população. Por isso, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) consideram a agricultura familiar um ator central no enfrentamento da crise climática. Cabe aos governantes terem a clareza de que as mudanças climáticas afetam em cheio a segurança alimentar e a transição ecológica de seus países, e o Brasil não está fora dessa equação.
