
Por Leandro de Souza Cruz — docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB)
Quando Brasília ainda convencia o mundo de que não era uma miragem no Planalto Central, Juscelino Kubitschek e o Ministério das Relações Exteriores ofereceram às representações estrangeiras terrenos de 25 mil metros quadrados. A dádiva trazia, como contrapartida, a expectativa de que cada país confiasse sua sede a profissionais capazes de expressar sua cultura, em diálogo com a arquitetura da nova capital e a paisagem do Cerrado. Em gesto afirmativo do governo brasileiro, a Avenida das Nações foi inaugurada ainda em 1958, mesmo ano do Palácio da Alvorada e do Eixo Monumental.
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Como aponta Paulo Roberto Santos na dissertação Arquitetura estrangeira e outras arquiteturas (2005), foi só nos anos de 1970, após a abertura do Palácio Itamaraty em 20 de abril de 1970, que ocorreu o grande fluxo de inaugurações. A partir disso, muitos países passaram a construir e transferir suas sedes para a nova capital, implicando um conjunto de obras projetadas por arquitetos estrangeiros, tais como as embaixadas de Portugal, Alemanha, Itália e México, entre outras.
Inaugurada em 12 de outubro de 1976, a Embaixada do México ocupa posição de destaque nesse conjunto. Projetada entre 1973 e 1975 por Teodoro González de León, Abraham Zabludovsky e Francisco Serrano, a obra materializa as relações entre duas nações modernas que não renunciam a sua memória sobre a colonização e sua superação.
O conjunto é composto por Chancelaria, na cota mais baixa; a Residência Oficial, ao centro do terreno; e o Conjunto Habitacional, com oito residências para diplomatas, na parte alta, com acesso por uma via secundária. O "motivo central" das três edificações, segundo Francisco Serrano, é o pórtico, como uma reinterpretação tipológica específica para cada uma das edificações.
Nas residências dos diplomatas, ele conduz a um pátio central, escalonado, que distribui os acessos e reinterpreta o claustro, um tema tão caro para a arquitetura tradicional quanto para o problema da habitação mínima no século 20.
A residência do embaixador evoca uma citação à Villa Stein-de-Monzie (1926-1928) de Le Corbusier, uma afinidade que remete aos 18 meses em que González de León trabalhou no escritório do arquiteto franco-suíço, entre 1948 e 1949. Aqui o pórtico abriga um conjunto de escadas, patamares e terraços que prolongam a promenade architecturale em direção ao espaço externo. A vanguarda europeia submete-se a uma reinvenção com o acento da cultura arquitetônica moderna mexicana, com sombras generosas e grandes planos envidraçados.
A Chancelaria enfrenta o problema do palácio moderno, organizando os escritórios com a racionalidade e a transparência necessárias às instituições democráticas. Sua genealogia, no entanto, é barroca. O edifício principal, como um corps de logis, é ladeado por grandes taludes que encerram um cour d'honneur, conformando um pátio ciclópico voltado para o Lago Paranoá.
Tudo começa, porém, com a movimentação da topografia. A terra é empurrada de modo a formar plataformas sobre as quais repousam as construções. Como mostrou Maria Manuel Oliveira (2016), Brasília foi construída na "linha do horizonte", pela manipulação do chão, lembrando que o próprio Eixo Monumental nasceu do agenciamento de cortes e aterros.
Por fim, cabe destacar que se trata de um caso singular no setor, por ser a única embaixada com acesso livre ao público, sem grades nem guaritas, em um gesto que converte a forma arquitetônica em disposição política. Ainda sobre o acesso principal, a réplica da cabeça olmeca e a portada assimétrica tornam inquietante a relação entre tradição e inovação, numa colagem radical herdada das vanguardas de começo do século 20.
Em O destino de Brasília (2010), Kenneth Frampton apontou uma limitação evidente dos Setores de Embaixadas, com seus edifícios mal relacionados, incapazes de conformar um verdadeiro bairro diplomático. Nada mais distinto do caso mexicano: como observou Eduardo Rossetti em Arquiteturas de Brasília (2012), a abertura do pátio traduz a expectativa de relações bilaterais efetivas, criando um limiar comum, de modo que aquela paisagem já não pertence mais só ao Brasil ou ao México.
Na comemoração de seus 50 anos, a Embaixada do México reafirma seu interesse além da arquitetura. Sua monumentalidade confere ao conjunto uma condição totêmica, que guarda a cultura mexicana sem perder a universalidade de um projeto político comum, ou, inversamente, parte de uma vocação universal, diplomática, para tornar-se presença mexicana situada em Brasília.
Opinião
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