
Tem jogo que cansa antes de começar. Não pela qualidade dos times, mas pela catimba. O zagueiro chega atrasado e acerta o adversário. Falta. Reclamação. O atacante demora para cobrar. O goleiro segura a bola além da conta. Um jogador cerca o árbitro, outro entra na conversa, o banco se levanta. O juiz apita. E a bola continua parada.
Não é uma crítica à malícia do futebol. Ela faz parte do jogo. Há equipes que sabem esfriar o adversário, quebrar o ritmo, transformar cada interrupção em vantagem. O problema aparece quando a partida passa a ser disputada mais no grito do que na bola. Quando cada lance abre uma assembleia. Quando o árbitro vira o centro da cena e os 22 jogadores parecem esquecer o motivo pelo qual estão ali.
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Foi impossível não pensar nisso ao acompanhar a sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) na terça-feira. Eu me preparei para assistir a um grande jogo. Havia expectativa, personagens, decisões importantes e um assunto capaz de prender a atenção durante horas. Como quem se acomoda no sofá para acompanhar um clássico, esperei o apito inicial. Queria ver a bola em movimento.
A sessão extraordinária analisava a Petição 16.662, relacionada a relatório produzido pela Polícia Federal no caso Master. O plenário passou boa parte do tempo discutindo uma questão de ordem: se o caso Alexandre de Moraes deveria ser analisado em conjunto com a Petição 16.704, relacionada a André Mendonça. A discussão consumiu a sessão. Flávio Dino pediu vista, e o mérito da Petição 16.662 não chegou a ser examinado. O placar formal ficou em 4 x 3 pela tramitação separada. Mas havia um detalhe: Dino havia se manifestado pela reunião dos procedimentos antes de pedir vista. Em campo, ou melhor, no tapetão, era quase um 4 x 4.
Nelson Rodrigues escreveu que o empate é o pior resultado do mundo. O torcedor se sente roubado do dinheiro da entrada. Na terça-feira, a sensação foi ainda mais peculiar: houve a interrupção antes de saber como terminaria a partida.
Um jogo de futebol pode ser truncado. O torcedor aceita. Faz parte do espetáculo ver um marcador encurtar espaço, um atacante cavar segundos, um goleiro retardar a reposição, um capitão cobrar explicações. Mas existe uma fronteira entre administrar o jogo e impedir que ele aconteça. O relógio corre nos dois casos. A diferença está no tempó útil, o que o público consegue assistir enquanto o cronômetro corre.
Catimba faz parte. Reclamar também. Divergir, igualmente. Quem compra ingresso para uma final almeja ver os protagonistas decidindo a partida, não passar a noite acompanhando discussões sobre o árbitro. Deseja o lance, o passe, o chute, a defesa, o gol. A disputa que justificou a espera.
Foi essa a minha sensação diante do Supremo. Saí com a frustração de quem havia se preparado para assistir a um grande jogo e viu o essencial ser adiado. A sessão tinha regras, votos, argumentos e procedimentos. Tudo isso faz parte de um julgamento. Mas, para quem acompanhava de fora, a expectativa era outra: ver a questão principal avançar.
No futebol, quando o placar termina empatado, ainda pode haver prorrogação. Dedependendo da competição, pênaltis. O que o torcedor não espera é deixar o estádio justamente quando a cobrança vai começar. Na terça-feira, o relógio avançou. O placar ficou em 4 x 4 na leitura de quem acompanhava os votos, mas o resultado formal permaneceu em 4 x 3. O pedido de vista interrompeu a sessão antes que a disputa chegasse ao desfecho. O torcedor, metaforicamente, ficou sem a cobrança dos pênaltis. A bola estava lá. Só faltou rolar.
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