Visão do Correio

O acordo que o mundo não cumpriu

Cada décimo de grau que deixarmos de emitir representa vidas que não serão perdidas, ecossistemas que não serão destruídos, cidades que não serão inundadas

Em 2015, quase 200 países se reuniram em Paris e assumiram um compromisso histórico: manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C em relação à era pré-industrial. O acordo foi celebrado como um marco civilizatório, a prova de que a humanidade era capaz de se unir diante de uma ameaça comum. Onze anos depois, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) admite, pela primeira vez em um documento oficial, que esse limite será ultrapassado. O desafio, diz o relatório, não é mais evitar o excesso, e, sim, administrá-lo.

É difícil não sentir o peso dessa frase. Administrar o excesso significa aceitar que falhamos no objetivo central que nos propusemos. As emissões de gases de efeito estufa continuam crescendo. Os combustíveis fósseis seguem sendo subsidiados por governos que assinaram o Acordo de Paris. As metas climáticas nacionais, na maioria dos casos, não foram cumpridas. A coordenação global que o momento exigia nunca chegou, substituída por promessas de cúpulas, relatórios sem força vinculante e a política do calendário eleitoral, que empurra as decisões difíceis para a próxima administração.

O mundo já está pagando a conta. Os três últimos anos foram os mais quentes já registrados. As ondas de calor que mataram dezenas na Europa, as enchentes que submergiram Porto Alegre em 2024, as secas que devastaram comunidades no Nepal e os sinais do Super El Niño que se forma neste momento são os primeiros pagamentos de uma dívida climática acumulada por décadas de inação. O planeta está enviando avisos em linguagem cada vez menos sutil e, ainda assim, a resposta política permanece aquém da urgência.

A tentação, diante de uma notícia como esta, é a resignação. Se o limite foi ultrapassado, se o Acordo de Paris não funcionou, se os governos não agiram quando ainda havia tempo, para que insistir? Essa lógica é compreensível. E é precisamente o raciocínio que não podemos nos dar ao luxo de seguir. Cada décimo de grau que deixarmos de emitir representa vidas que não serão perdidas, ecossistemas que não serão destruídos, cidades que não serão inundadas. A diferença entre 1,6°C e 2°C é catastrófica. E a diferença entre 2°C e 2,5°C, mais catastrófica ainda.

Superar o limite de 1,5°C é uma derrota. Não pode ser uma desistência. O momento exige luto pela meta perdida, pelas oportunidades desperdiçadas, pelas vidas que já foram e pelas que serão afetadas. Mas exige, acima de tudo, que esse luto não se converta em paralisia. Reduzir emissões agora ainda importa. Proteger florestas ainda importa. Financiar a transição energética nos países mais vulneráveis ainda importa. O mundo que vem será mais quente do que queríamos. Mas o quanto mais quente depende, ainda, das escolhas que fizermos e das ações que vamos tomar.

 

Mais Lidas