
Por Carlos Bocuhy, Presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam)
As eleições de 2026 ocorrerão em um contexto que já não permite tratar a questão climática como mais um tema ambiental entre tantas outras agendas, ou relegá-la apenas a alegações cosméticas frequentes em programas políticos superficiais.
Ondas de calor, secas, incêndios, enchentes, deslizamentos e outros eventos extremos demonstram que entramos em um período no qual a capacidade de antecipar riscos tornou-se uma das principais responsabilidades de quem governa. Isso modifica também a responsabilidade de quem os elege.
Avaliar candidatos por suas propostas para economia, emprego, saúde, educação, segurança e infraestrutura é importante. Mas a emergência climática acrescentou a exigência essencial: saber se aqueles que pretendem governar compreendem e adotarão medidas sobre o mundo no qual terão de governar.
Esse é um dos grandes dilemas das eleições de 2026. Um governante sem compreensão da crise climática não representa apenas uma posição ideológica diferente. Representa incapacidade objetiva de reconhecer riscos que ameaçam a população, a economia e o próprio funcionamento da sociedade.
A onda de calor deste último verão europeu deixou gosto amargo. Demonstrou como o clima pode aumentar mortalidade, pressionar hospitais, elevar o consumo de energia, reduzir produtividade e aprofundar desigualdades.
Uma seca prolongada pode comprometer abastecimento público, agricultura e geração elétrica. Chuvas extremas podem ceifar vidas, atingindo especialmente populações vulneráveis que habitam áreas de risco.
A moderna administração pública começa a trabalhar com o conceito de governança antecipatória: observar tendências, identificar sinais de mudança, construir cenários e incorporar contingência e preparação às decisões do presente.
Governar depois da tragédia significa fracassar na função essencial de proteger. A pergunta que deveria ser dirigida a cada candidato é simples: quais riscos climáticos ameaçam a população que você pretende governar e o que pretende fazer antes que eles se transformem em desastre?
Planejar uma cidade sem considerar temperaturas extremas, autorizar ocupações sem compreender a dinâmica das águas, reduzir áreas verdes, fragilizar sistemas de fiscalização, desprezar a ciência ou tratar o licenciamento ambiental como simples obstáculo burocrático são até capazes de produzir ganhos políticos imediatos, já que transferem riscos e custos sociais para o futuro.
Precisamos perguntar aos candidatos como pretendem proteger a sociedade diante dos riscos que já conhecemos. Defendem sistemas de alerta precoce? Conhecem as áreas vulneráveis? Pretendem mapear populações expostas ao calor extremo? Como protegerão escolas, creches, hospitais e instituições de longa permanência? Qual será sua política de segurança hídrica?
Essas perguntas deveriam ocupar debates eleitorais, entrevistas, programas de governo e sabatinas públicas. Governança envolve estruturas, processos, instituições, regras e relações por meio das quais a sociedade identifica problemas, estabelece prioridades, toma decisões, implementa políticas e avalia seus resultados.
Governos preparados precisam ter capacidade de reunir ciência, monitoramento ambiental, conhecimento territorial, planejamento, participação social e instrumentos jurídicos para interpretar mudanças, antecipar riscos e orientar decisões.
O voto é uma decisão sobre capacidade de governo. É essencial saber se os que pretendem ser eleitos compreendem o tempo histórico em que vivemos. Trata-se de exigir algo elementar: capacidade de reconhecer evidências, ouvir a ciência, compreender riscos, planejar preventivamente e construir instituições competentes.
Mandatos duram quatro anos. Suas consequências ambientais podem atravessar gerações. A democracia sozinha não pode garantir que o futuro seja fácil. Mas pode produzir escolhas que permitam enfrentá-lo com competência.

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