Opinião

A meia dependência de Ancelotti

O trabalho do italiano só vai engrenar quando ele encontrar o que teve de melhor nas cinco conquistas de Champions League no Milan e no Real Madrid: meio de campo

Na última quarta-feira, eu saí da primeira convocação do técnico Carlo Ancelotti na largada do ciclo da Seleção para a Copa do Mundo de 2030 com uma certeza: o trabalho do italiano só vai engrenar quando ele encontrar o que teve de melhor nas cinco conquistas de Champions League no Milan e no Real Madrid: meio de campo.

Era fácil nos clubes. Ele encomendava os melhores e os presidentes rossonero Silvio Berlusconi ou merengue Florentino Pérez realizavam os sonhos de consumo do treinador. O dinheiro encurtava o caminho para o sucesso. Na Seleção Brasileira, o presidente da CBF, Samir Xaud, não pode resolver as carências do técnico. É impossível ir ao mercado comprar Rodri na Espanha, Olise na França, Jude Bellingham na Inglaterra, Vitinha ou Bruno Fernandes em Portugal, Enzo Fernández ou Alex Mac Allister na Argentina, Federico Valverde ou Georgian Arrascaeta no Uruguai. Todos têm o que falta ao Brasil.

Tal como a força de Sansão estava no cabelo, a de Carlo Ancelotti está diretamente ligada ao meio de campo. Em 2003, ele conquistou a Liga dos Campeões da Europa pela primeira vez ostentando Gattuso, Pirlo, Seedorf e Rui Costa na criação. Superou a Juventus do compatriota Marcello Lippi na decisão por pênaltis no Old Trafford, o teatro dos sonhos do Manchester United.

Quatro anos depois, o setor teve upgrade no título do Milan contra o Liverpool. Gattuso, Pirlo e Seedorf ganharam a companhia de Ambrosini e do brasileiro Kaká, artilheiro da Champions League e eleito melhor jogador do mundo em 2007. Havia muita qualidade no coração do time.

Carlo Ancelotti chegou novamente à finalíssima europeia em 2014 pelo Real Madrid. A escalação inicial contra o Atlético de Madrid desfrutava de Khedira, Modric e Di María. O que seria do badalado trio BBC formado por Bale, Benzema e Cristiano Ronaldo sem a mente dos três?

Os outros dois títulos de Carlo Ancelotti na Champions League disponibilizavam ao italiano o mais alto padrão de excelência no meio de campo com jogadores no ápice da forma técnica e física: Casemiro, Modric e Toni Kroos. Ele também contava com o jovem uruguaio Federico Valverde em uma dupla função na vitória contra o Liverpool no Stade France. Fechava o meio de campo pela direita sem a bola e virava um falso ponta-direita quando o Real atacava, ao lado de Benzema e de Cristiano Ronaldo.

O técnico do Brasil ganhou o último dos cinco títulos da Champions League em 2024 reinventando o meio de campo do Real Madrid. Não havia mais Casemiro e Modric entrava em declínio. O quarteto passou a ter Camavinga, Valverde, Kroos e Bellingham munciando Vinicius Junior e Rodrygo. Repararam? Nunca houve título de Champions League do técnico Carlo Ancelotti sem o talento e a magia do meio de campo.

Carlo Ancelotti saiu do país convicto de que poderia levar o Brasil ao hexa com Casemiro e Bruno Guimarães no meio de campo e quatro atacantes. Iniciou o Mundial contra Marrocos com Casemiro, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá. Terminou com Casemiro, Bruno Guimarães, Rayan e Gabriel Martinelli na derrota para a Noruega por 2 x 1 e finalmente admitiu na última convocação: "Temos que escolher meio-campistas. Nesse momento temos um pouco de carência no meio de campo, isso é óbvio e vai determinar também o modelo de jogo para o futuro da Seleção", afirmou um ex-meia. Dos bons!

Nos tempos de jogador, Ancelotti ganhou a Champions League em 1989 formando o meio de campo de Arrigo Sacchi com Rijkaard e Donadoni. No bi, em 1990, saiu Donadoni e entrou Evani.

Os meias da primeira lista são Andrey Santos, Breno Bidon, Bruno Guimarães, Danilo Santos, Douglas Luiz e Gabriel Bontempo. Não será fácil...

 

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