
Marcos Vinícios Botelho — ativista socioambiental, é diretor da Onda Solidária e personalidade climática do ano pelo Prêmio Descarbonário do The Climate Reality Project Brasil
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“Campanha política que não fala em árvore e em água, para mim, não presta”, disse uma vez Maria Bethânia. A frase parece um critério simples para uma escolha difícil. Encontrar árvores nos discursos deveria ser fácil, apesar de não ser. Nos planos, ao menos, há propostas ambientais. Mas a declaração revela algo que vai além: saber se a árvore continuará de pé depois da posse exige conhecer o que sustenta cada promessa.
As eleições atuais revelam sinais de atipicidade. Escândalos como o do Banco Master têm tomado as atenções, fazendo com que “STF”, “PGR” e “decisões monocráticas” pareçam termos mais frequentes do que educação, saúde e segurança. Mas, mesmo se este outro grupo de assuntos predominasse, ainda correríamos o risco de manter a temática ambiental sub-representada no debate eleitoral de 2026.
Enquanto o andar de cima do poder se debate, a vida continua exigindo respostas aqui embaixo. Para um país ferido pelas enchentes gaúchas e pela seca amazônica de 2024, é fundamental olhar para esta eleição também sob o aspecto ambiental. Afinal, o alerta se renova: a Organização Meteorológica Mundial prevê a intensificação do El Niño com persistência até fevereiro de 2027, elevando riscos de extremos climáticos no próximo mandato.
O clima merece ser um critério para julgar promessas eleitorais. Quem pretende melhorar a educação deve considerar o calor nas escolas. Quem propõe resolver a moradia precisa explicar como proteger famílias de enchentes e deslizamentos. Quem fala em comida na mesa deve olhar para água e florestas que sustentam a produção. Discutir essas propostas sem considerar o ambiente é deixar de examinar as condições para cumpri-las.
Segundo o Prodes/Inpe, o desmatamento na Amazônia Legal caiu de 11.594 km² em 2022 para 5.731 km² em 2025: uma redução de 50,6%. Do último ano do governo Bolsonaro ao terceiro do atual governo Lula, houve uma melhora muito importante a se reconhecer, mas ainda é preciso avançar mais nesse sentido.
Importa, portanto, olhar como os candidatos compreendem o problema. Em sua sabatina na TV Globo, Flávio Bolsonaro afirmou acreditar em “efeitos cíclicos” ao tratar dos extremos climáticos, em sinal de negação da emergência climática ligada à ação humana. Ofereceu saneamento básico que, embora importante, não resolve o problema. Ciclos naturais existem, mas não explicam o aquecimento global provocado pelas emissões humanas. Quem pretende governar precisa reconhecer essa responsabilidade e apresentar medidas para reduzir emissões, fiscalizar e prevenir.
Lula deve responder por outra tensão: a coerência entre os avanços ambientais de seu governo e a aposta no petróleo da Foz do Amazonas, que chamou de “o passaporte do futuro do país”. Para qual futuro esse passaporte nos levaria? É preciso explicar sua articulação com a transição energética, seus limites e a destinação dos recursos. Reduzir o desmatamento é importantíssimo, mas não encerra a avaliação a ser feita.
Esse olhar deve alcançar todos os candidatos — especialmente os que disputam o Legislativo. A conservação precisa ser confrontada com as decisões para energia, agricultura e infraestrutura. A árvore mencionada numa página não pode estar ameaçada pela obra defendida na seguinte. Mais do que contar referências ao meio ambiente, precisamos examinar a compatibilidade entre promessas. Entrevistas e debates deveriam tornar esses posicionamentos compreensíveis, em meio às demais urgências que assolam o país.
Proteger pessoas exige apoio aos estados e municípios, planejamento e prevenção de longo prazo. Reações imediatistas desconsideram que desastres pontuais integram uma crise maior que passa por infraestrutura, desigualdade e justiça. Para os jovens em especial, estamos falando de um futuro que dura muito além de um mandato.
O Brasil tem raiz. Cuidar dela exige acompanhar o caminho entre o que se promete, o que se prioriza e o que se fiscaliza. A consciência climática precisa entrar conosco na cabine de votação. E sair de lá disposta a cobrar de quem sair eleito.
Opinião
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