
Mãe Nilce de Iansã — Iyá Egbe do Ilê Omolú e Oxum, coordenadora nacional da Renafro e membro da Comissão de Advocacia do Axé da OAB-RJ; Odja Barros — pastora na Igreja Batista do Pinheiro (AL) e doutora em teologia e psicanalista; Alessandra Miranda — assessora da CNBB na Comissão Episcopal para Ação Socio Transformadora e na Comissão Episcopal Especial para o Enfrentamento ao Tráfico Humano
O Brasil é um país de muitas crenças, tradições e espiritualidades. A fé está presente na vida de famílias e comunidades, oferece consolo diante do sofrimento e também inspira a busca por dignidade e justiça. Católicos, evangélicos, religiões de matriz africana e tantas outras expressões religiosas fazem parte dessa história plural e da construção de um país que busca viver com liberdade, direitos e respeito às diferenças.Em diferentes momentos da nossa história, a experiência religiosa também esteve ligada à esperança na democracia e à possibilidade de convivência pacífica e solidária entre pessoas que não necessariamente pensam ou creem da mesma maneira.
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É nesse sentido que reafirmamos nossa confiança na democracia, nos direitos conquistados por meio dela e nas instituições e processos eleitorais que os sustentam. São essas garantias que permitem a cada pessoa exercer sua fé ou não professar nenhuma, discordar e, ainda assim, compartilhar a vida em sociedade. Por isso, a democracia não se limita ao momento do voto: precisa estar presente nas instituições sociais e nas relações que construímos todos os dias.
Sabemos, porém, que essa convivência está sob pressão. A polarização e a desconfiança abrem espaço para discursos de radicalização e hostilidade que circulam pelas redes sociais e grupos de mensagem e chegam também aos ambientes religiosos. Seus efeitos aparecem nas relações cotidianas, alcançando famílias e comunidades e colocando diante das pessoas de fé um desafio: fortalecer o diálogo, o compromisso com a verdade e a promoção do bem comum.
Cuidar da verdade e da boa informação faz parte dessa responsabilidade. Nossas comunidades e espaços de convivência também precisam assumir seu papel no enfrentamento à desinformação.
Esse compromisso também se expressa nas eleições. Respeitar a democracia é reconhecer a integridade do processo eleitoral e a vontade da maioria manifestada por meio dele, preservando ao mesmo tempo a liberdade de cada pessoa para escolher seu voto sem qualquer forma de coação.
A liberdade religiosa depende também da garantia de um Estado laico. Longe de representar uma ameaça às religiões, o Estado laico garante a liberdade religiosa para todas as tradições de fé, assim como o direito de cada pessoa de crer ou de não crer. Essa liberdade só existe plenamente quando ninguém precisa viver sua fé sob violências oriundas da intolerância religiosa e do racismo religioso que ameaçam o próprio direito de existir de pessoas e comunidades de fé
Conviver com diferenças não significa enfraquecer nossas crenças. O diálogo e a cooperação entre tradições distintas podem, ao contrário, fortalecer nossas convicções mais profundas. E, mesmo quando nossas crenças não são as mesmas, há um compromisso capaz de nos aproximar: a defesa e a promoção da dignidade humana.
É a partir desse entendimento que convidamos lideranças religiosas, comunidades de fé e pessoas de diferentes origens, tradições espirituais e posições políticas a assumir esses compromissos. Ninguém precisa abandonar suas convicções para fazê-lo. É justamente preservando nossas diferenças que podemos reconhecer a democracia como o terreno comum no qual cada fé pode florescer com liberdade e respeito mútuo.Nossas orações, cultos e práticas espirituais também podem expressar uma cidadania democrática e plural. Que a fé que nos move nos ajude a cuidar da verdade, respeitar quem pensa diferente e zelar pelas instituições que asseguram a todas as pessoas o direito de viver, crer e conviver em paz. É esse o compromisso que afirmamos: a fé brasileira escolhe a democracia.
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