
Enquanto você lê esse texto, eu provavelmente já terei votado. São décadas trabalhando em dias de eleições, cozinhando numa redação a cobertura mais importante para o banquete democrático, desde a abertura das urnas até o último voto computado. Voto cedinho, depois de um café quente e uma oração a Deus, pedindo que seja um dia de festa e de bom trabalho, e que nossa equipe ofereça aos nossos leitores o melhor que o jornalismo pode proporcionar, com muito serviço, informação e análises ao longo do dia.
Como já disse algumas vezes neste espaço, considero a eleição o dia mais festivo de todos. É quando reafirmamos que o Brasil é um país democrático, que tem uma Constituição cidadã e plural, que garante ao brasileiro o direito ao voto em cada canto do país ou do mundo. Temos um sistema eletrônico elogiado em todo mundo, que a despeito de falas isoladas de detratores, sempre provou sua segurança e eficiência.
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Outro dia, uma amiga encontrou e me mandou uma matéria minha, nos arquivos do Correio, sobre um dos debates presidenciais de 1989, quando Lula e Brizola estavam tecnicamente empatados e protagonizaram discussões acaloradas que giravam em torno da importância de não voltarmos à ditadura. Lula acabou indo para o segundo turno e perdeu para Fernando Collor. Trago esse detalhe para dizer que a manutenção da democracia segue sendo, após décadas, a maior das reivindicações.
Nasci um ano antes do golpe militar e, desde 1982, acompanho como jornalista as eleições — naquela, ainda como estagiária na Rádio Globo, em Recife. Mas muito antes era vocacionada a defender a democracia. Estudei numa escola ligada às comunidades eclesiais de base e fiz faculdade graças ao crédito educativo. Sou fruto das políticas públicas. Ouvi e ainda ouço Dom Helder Câmara, que foi arcebispo de Olinda, defendendo a democracia e a luta contra a pobreza e a fome. Nesta campanha, ouvi os bispos e a CNBB ainda pedindo consciência e respeito ao voto e ao sistema democrático.
Escolher governantes e legisladores é assumir para si parte da responsabilidade pelo futuro. Depende de nós escrutinar o passado, compreender a complexidade do presente e projetar o que é o melhor para todos, e não apenas para nós próprios, daqui pra frente. Nunca estaremos plenamente satisfeitos com quem elegemos, já que todos somos falhos em alguma medida. Mas é essencial saber que a nossa escolha é importante, essencial e que cada voto faz diferença.
Abster-se de um direito é entregar ao outro sua própria sorte. Por isso, considero que ninguém deve abrir mão do voto. Para muitos, a omissão neste dia pode ser também um ato de protesto. Eu não acredito nessa tese. Brancos, nulos e ausências, a meu ver, são procurações em branco. Só retiram do sujeito a responsabilidade da escolha, entregando-a a quem nem sequer conhece. Ainda que não tenha os candidatos ideais dentro da sua forma de ver e viver, assuma seus riscos, analisando os cenários possíveis.
O país está polarizado, e não é de hoje. Qualquer resultado vai desagradar uma parcela importante da população. Faz parte do jogo democrático. Não é preciso ter unanimidade. Basta consciência, reflexão e vontade de fazer a coisa certa. Indecisos, idosos e jovens podem decidir essa eleição. Puxe os seus, incentive, leve-os para votar.
Sabe aquela frase "vai com medo mesmo"? Pois é. Vai com sua incerteza, sua esperança, seus protetores, seus melhores pensamentos, sua fé, seus afetos, suas crenças, seus motivos. Eu fui às urnas por um Brasil maior e melhor, sem fome, democrático, plural, diverso, soberano, que proteja as crianças, as mulheres e o meio ambiente. O Brasil espera seu posicionamento, e ele faz muita diferença.